Uma Jane Austen de terra e pele: a nova “Razão e Sensibilidade” acerta no laço entre irmãs, mas tropeça no charme

Cinema Críticas

Por Adriana Maraviglia

Há adaptações de Jane Austen que nascem com o peso de uma coroa. A versão de Ang Lee para Razão e Sensibilidade, de 1995, é uma delas: Emma Thompson e Kate Winslet transformaram as irmãs Dashwood em figuras quase mitológicas do cinema de época, e o roteiro de Thompson — premiado com o Oscar — encontrou um equilíbrio raro entre a ironia austeniana e a emoção contida. É contra esse fantasma que qualquer nova versão precisa lutar. E Georgia Oakley, diretora do excelente Blue Jean (2022), sabe disso. Sua nova Razão e Sensibilidade, que estreou nos cinemas brasileiros em 29 de outubro, não tenta destronar o clássico. Tenta outra coisa: devolver à história o barro, o suor e a respiração de jovens mulheres que precisam calcular o próprio futuro afetivo porque o dinheiro não lhes pertence.

O resultado é um filme que respira por caminhos próprios, mas que também tropeça onde a versão anterior era imbatível: no magnetismo dos pretendentes e na construção do desejo.

O coração desta nova adaptação não está nos romances. Está nas irmãs. Oakley declarou em entrevista que sempre viu o vínculo entre Elinor e Marianne como o verdadeiro amor da história, mais fundamental do que qualquer cortejo. E isso transparece na tela. Daisy Edgar-Jones compõe uma Elinor contida sem ser apagada; seus olhos falam o que a boca cala, e há uma dignidade tranquila em sua performance que lembra a melhor tradição do cinema britânico. Esmé Creed-Miles, por sua vez, enfrenta o desafio mais ingrato: suceder Kate Winslet em um papel que exige intensidade sem resvalar no histriônico. Ela consegue momentos de genuína fragilidade juvenil, ainda que, em algumas cenas, a direção pareça confundir emoção com volume.

A grande vitória de Oakley, porém, é visual e conceitual. A diretora e a figurinista Grace Snell optaram por um realismo rústico que se afasta do esplendor de salão associado a Austen. As roupas são panos folgados, os cabelos estão soltos, os corpos se emaranham em grama e terra. A fotografia de Arnaud Potier, filmada em parte em 35mm, cria uma Inglaterra úmida, fria e palpável — mais próxima do romantismo selvagem de O Morro dos Ventos Uivantes do que da elegância urbana que costumamos projetar em Austen. É uma escolha corajosa e, em grande medida, bem-sucedida: este é um filme sobre mulheres que perdem o teto e precisam reconstruir um lar, e a textura áspera do mundo ao redor amplifica essa fragilidade material.

Aqui, infelizmente, preciso concordar com a crítica que já circula: o Willoughby de Frank Dillane é um problema. O personagem precisa ser encantador o suficiente para que a paixão de Marianne pareça inevitável e, depois, devastadora. Dillane constrói um Willoughby esquivo, quase entediado, que nunca convence como o homem capaz de virar a cabeça de uma jovem romântica. A química entre os dois simplesmente não acontece, e o romance de Marianne — que deveria ser o contraponto passional ao racionalismo de Elinor — perde força a cada cena.

Há também um desequilíbrio no tratamento de Londres. Se o campo ganha vida e textura, os bailes e salões londrinos soam genéricos, sem o glamour opressivo que deveria contrastar com a simplicidade de Devonshire. A crítica que você, leitora, já havia feito antes mesmo de eu assistir ao filme se confirma: Oakley valoriza o rural, mas não encontra uma linguagem visual equivalente para a cidade.

Esta Razão e Sensibilidade não substitui a versão de 1995, e provavelmente não se tornará o clássico que aquela se tornou. Mas seria injusto medi-la apenas pela régua da nostalgia. Georgia Oakley fez um filme que tenta — e em vários momentos consegue — devolver a Austen algo que o cinema de época muitas vezes perde: a sensação de que aquelas mulheres estavam vivendo, não posando. Daisy Edgar-Jones e George MacKay sustentam o eixo Elinor-Edward com uma delicadeza que justifica a sessão. E a decisão de colocar as irmãs, e não os casamentos, no centro da narrativa é um acerto que merece ser reconhecido.

Se você ama o livro e a versão de Ang Lee, vá sem esperar uma substituta. Vá esperando uma releitura que enxerga a Austen de outro ângulo: menos salão, mais terra; menos glamour, mais laço. Não é pouco.

Assista ao trailer de “Razão e Sensibilidade”: