Chegando aos cinemas nesta quinta-feira (28/05), “Backrooms: Um Não-Lugar” e em sessões especiais de pré-estreia hoje, o aguardadíssimo filme de estreia no cinema de Kane Parsons, um jovem britânico-americano que vai completar 21 anos só no mês que vem, mas que começou a desenvolver esse universo em 2021, quando tinha apenas 16 anos, em seu canal no YouTube.
O que torna a estreia de Parsons ainda mais fascinante é a trajetória incomum: antes de ser um longa-metragem da A24, Backrooms já era um fenômeno viral – seus curtas caseiros somam dezenas de milhões de visualizações e criaram uma comunidade inteira obcecada por corredores vazios, carpetes manchados e luzes fluorescentes que nunca se apagam. Por isso, a expectativa para este filme já é enorme, principalmente entre os fãs do terror analógico e do chamado found footage, aquelas filmagens com cara de caseiras que costumam apavorar o público e tiveram seu auge em 1999 com o fenômeno “A Bruxa de Blair”. E a boa notícia é que Parsons corresponde.
Achei que o terror moderno tinha se perdido em sustos baratos e barulhos altos. Que bom estar errada. Backrooms: Um Não-Lugar traz algo que há muito tempo não víamos: o calafrio silencioso.
A A24, casa de produções autorais e inquietantes como X – A Marca da Morte e Men, agora aposta suas fichas em um youtuber de 20 anos e acerta em cheio. E não se trata de uma aposta isolada: o longa conta com um elenco estrelado que dá corpo e peso à tensão. Chiwetel Ejiofor entrega uma atuação contida e perturbadora como Clark, um vendedor de móveis em crise silenciosa, que descobre um portal e é arrastado para um labirinto de ambientes que não deveriam existir. Sua terapeuta, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), vai atrás dele carregando seus próprios traumas, e os dois acabam confrontando o isolamento que já os consumia do lado de fora.
Os dois juntos criam uma dinâmica de desespero silencioso que nunca cai no melodrama – algo raro no terror contemporâneo.
Mais surpreendente para quem não conhece a origem essa história é que Parsons está recriando os analógicos anos 90 com suas TVs de tubo, videogames pixelados e estética de VHS, sem se basear em nada que tenha vivido. Não há ali a nostalgia de quem quer “voltar aos bons tempos”. O que fascina Parsons é outra coisa: os espaços liminares – aqueles lugares de passagem que não são lugar nenhum, como corredores de escritórios abandonados, shoppings vazios ou escadarias de estacionamento. Lugares que, por serem familiares e ao mesmo tempo desolados, provocam um desconforto profundo. Ele não sente falta dos anos 90; ele sente fascínio pelo vazio que aquela estética carrega. E isso é o que ajuda a tornar sua ideia ao mesmo tempo tão genial e assustadora.
Como Kubrick ao filmar em 1980 sua obra-prima “O Iluminado”, ele arranca daqueles cenários uma atmosfera que assusta sem precisar de quase nada, além de um corredor, enquanto a trilha sonora opera sua “magia”.
O mais impressionante é que o próprio Kane Parsons compôs parte das músicas da trilha, mostrando que seu talento vai muito além. Ao lado de colaboradores experientes, Parsons criou camadas de som que não tentam te assustar com estouros ou cordas em dissonância agressiva. A música age como um zumbido baixo que começa no fundo da sua nuca e vai descendo pela espinha.
Com uma textura muito própria, ruídos de fita magnética distorcida e longos silêncios quebrados por notas isoladas de sintetizador – tudo lembrando as fitas educacionais que passavam na escola nos anos 90. A trilha cumpre perfeitamente seu papel: mantém o público em estado de alerta constante, sem nunca dar o alívio de um susto resolvido. Você não respira junto com o filme; você prende a respiração. O filme captura aquele medo puro de estar no lugar errado – um corredor infinito, um carpete todo manchado, uma luz fria que nunca desliga. A recriação de época é primorosa, mas nunca gratuita. Cada elemento analógico está ali para ajudar a criar uma sensação de abandono e de absoluta impotência diante do desconhecido,O longa nos transporta para um período onde o perigo estava nas entrelinhas. A qualidade visual remete ao VHS e à estética found footage. É sujo, claustrofóbico e, acima de tudo, real.
Com poucos recursos e muito talento, Parsons prova que o terror de verdade está no que não vemos – e que um youtuber de 16 anos, filmando sozinho no quarto, compondo suas próprias músicas e criando um universo do zero, consegue entender de medo mais do que muito estúdio com orçamento milionário.
E conta com atuações de peso como as de Ejiofor e Reinsve, que elevam o material a outro patamar, segurando a tensão no rosto, nos silêncios e nas decisões duvidosas que só o desespero justifica.
Não há explicação fácil nem final redondo. A proposta aqui é sentir o eco do abandono e carregar esse aperto no peito para casa, enquanto a trilha sonora – em grande parte criada pelo próprio diretor ainda na adolescência – continua zumbindo na sua cabeça horas depois de o filme terminar. Onde assistir? No cinema, mas não vá sozinho. E prepare-se: você nunca mais vai olhar para corredores vazios do mesmo jeito.
