Quem viu todos os filmes da saga Star Wars – e, convenhamos, alguns deles dezenas de vezes – sabe que sete anos de espera por uma nova aventura no cinema não se pagam com a enxurrada de spin-offs televisivos que chegam aos montes. Essas séries, no fim das contas, parecem muito mais interessadas em dispersar do que em reunir o público que se apaixonou pela galáxia muito, muito distante na época em que o filme original nem precisava de subtítulo.
As expectativas eram imensas, mas, na tela, o esperado “O Mandaloriano e Grogu” não chegou muito perto de satisfazê-las. O fã daquele universo riquíssimo precisou suspirar fundo e acompanhar na sala escura, em 3D, o que mais pareciam novas aventuras do caçador de recompensas mais querido da periferia da galáxia — aventuras que não ficariam nem um pouco deslocadas numa possível nova temporada da série.
Vamos aos fatos. Desde que foi anunciado, o projeto viveu na corda bamba do “será?”. A direção ficou a cargo de Jon Favreau, o padrinho dessa nova era do Star Wars na TV, e o roteiro mantém a estrutura que conhecemos bem. Din Djarin (Pedro Pascal, sempre impecável sob o capacete) e o adorável Grogu, a “Criança” que roubou a cena e nossos corações, estão novamente fugindo de um perigo ou correndo atrás de uma encomenda. E o filme, infelizmente, tem medo de ser mais do que isso.
A grande questão aqui é o tal do posicionamento na franquia. “O Mandaloriano” nasceu como um respiro. Após a trilogia sequência conturbada, a série resgatou o espírito de Faroeste espacial e nos apresentou um canto sujo, pulsante e cheio de personagens coadjuvantes interessantes. A estética do “faz de conta”, com cenários práticos e um ritmo de caçada, era o charme do negócio. No cinema, essa receita parece um tanto modesta. Parece que a Lucasfilm estava com medo de errar a mão novamente e preferiu jogar seguro, entregando um produto que serve ao fã da série, mas que dificilmente vai converter um espectador casual em um devoto da Força.
E é exatamente aí que mora o problema do “filme episódio”. Sabemos que Star Wars, desde 1977, é sobre o impacto visual, sobre a ópera espacial com direito a cortes rápidos, naves entrando em hiperspace e aquele senso de urgência. “O Mandaloriano e Grogu” flerta com a monotonia. A narrativa segue o “fetch quest” da semana, só que agora com orçamento de cinema. Claro, a fotografia é linda e a ação é competente, mas falta aquela virada de mesa. Faltou a coragem de transformar a dinâmica de pai e filho adotivo em algo maior do que uma série interminável de resgates.
Como diretor, Jon Favreau parece preso à gramática da TV. Ele se preocupa tanto em não desagradar quem já ama a série que esquece de dar um motivo para esse filme existir além da bilheteria. É um filme para quem já está comprado, não para quem quer se apaixonar. O vilão? Genérico. Os novos planetas? Muitas vezes estão mais para aquela mudança aleatória disponível nos descansos das nossas telinhas caseiras do que algo que tenha demandado algum esforço ou criatividade de uma equipe de Hollywood.
No saldo final, “O Mandaloriano e Grogu” é um daqueles programas de domingo chuvoso. A gente vê, gosta, se emociona com este ou aquele fã service, mas sai do cinema com uma sensação estranha de “mas era só isso?”. É um filme que existe para dizer que Star Wars ainda está na ativa, mas está bem longe do que a Força nos fazia sentir na sala escura, a cada nova história que estreava. Para quem acompanhou a série, é um abraço confortável. Para quem esperava um reinício da franquia, bem, a Força não está tão forte com este. Fica a sensação de que, por mais adorável que seja o Grogu, talvez fosse a hora de deixar o bebê engatinhar um pouco mais longe em busca de um roteiro com um pouquinho mais da alma rebelde que nos trouxe até aqui.
