Segunda Temporada: ‘O Homem das Castanhas’ Retorna com um Jogo Mais Cruel

Cinema Críticas

Por Adriana Maraviglia

Há um momento na segunda temporada de “O Homem das Castanhas” em que a escuridão não vem das paisagens cinzentas de Copenhague nem dos bosques onde a névoa se esconde. Vem da tela de um celular. A versão atualizada do “thriller nórdico” — que já tinha ficado na memória do público em sua primeira temporada — reaparece na Netflix com uma tese pertinente: o mal mudou de cara, mas continua aterrorizando; desta vez a um clique de distância, numa perseguição silenciosa e obsessiva pelo mundo digital.

Passados quase cinco anos desde o caso que os uniu (e separou), a dupla Thulin (Danica Curcic) e Hess (Mikkel Boe Følsgaard) retorna numa dinâmica de desconforto absoluto. As marcas do tempo não estão apenas na espera do público, mas na geografia emocional dos personagens. Eles tentam operar com a precisão fria da investigação criminal enquanto carregam o peso de uma relação mal resolvida, uma escolha narrativa que os humaniza, mas que às vezes freia o ritmo implacável que o público espera.

Baseada no segundo romance de Søren Sveistrup, “Hide and Seek” (Esconde-Esconde em português), que ainda não foi lançado no Brasil, a trama acompanha o sumiço de uma mãe solteira. A pista que deixou — uma canção de ninar infantil enviada por mensagem — ecoa o trauma de um homicídio não solucionado de uma adolescente. É aqui que o criador de “The Killing” mostra sua assinatura: o cotidiano pacato dinamarquês é apenas a superfície de uma ferida aberta que envolve disputas de guarda e violência doméstica. O simbolismo da estação anterior (as figuras de castanhas) dá lugar ao jogo de esconde-esconde — uma metáfora mais psicológica.

A crítica tem sido, no geral, extremamente receptiva. A temporada mantém os 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, recebendo muitos elogios nos sites especializados. O B.T. dinamarquês elogia um “plot twist de tirar o fôlego” no meio da temporada, um momento descrito como um dos mais arrojados já vistos na TV dinamarquesa. Contudo, nem tudo são flores. Alguns críticos apontam um excesso de precisão na trama que limita o espaço disponível para a emoção.

Visualmente, no entanto, a produção é impecável. As direções de Milad Alami e Roni Ezra capturam a solidão dos subúrbios gelados e o brilho hostil das cenas urbanas, provando que o “noir” nórdico ainda tem muito a dizer — mesmo que, às vezes, pareça refém de sua própria fórmula.

Haverá uma terceira temporada?

“Aqui jaz a questão” — ou melhor, o jogo. A Netflix, como sempre, mantém-se em silêncio sobre o futuro da série, mas os indícios são fortes e contraditórios.

O argumento do “Sim”: O material de origem está aí. Sveistrup tem se dedicado à saga de Thulin e Hess, e enquanto houver livros na prateleira, há fôlego para a adaptação. A série é um fenômeno consolidado de nicho; chamada nos sites internacionais de “uma das melhores séries da Netflix de todos os tempos” , ela sustenta uma audiência fiel que justifica financeiramente a produção. Além disso, o final da segunda temporada (cuidado com o spoiler, fujam das redes!) é tipicamente aberto, deixando um gancho para novas histórias.

O argumento do “Não”: O tempo. Há uma diferença brutal entre o imediatismo das séries comuns e o compasso deste projeto. Levou quase meia década para ganharmos a segunda temporada, pois a produção precisou esperar o lançamento do segundo livro. Se a Netflix quiser manter o padrão de fidelidade ao texto original, talvez vejamos um intervalo semelhante. Além disso, o streamer passa por uma fase de corte de custos e renovações imprevisíveis, especialmente para produções não-inglesas de alto orçamento, por mais aclamadas que sejam.

O palpite final (o meu, que não vale nada, mas é divertido):
Sim, teremos uma terceira temporada, mas não antes de 2029 ou 2030. A série se tornou a joia da coroa do “Nordic Noir” no streaming, uma vitrine de prestígio que a Netflix hesitaria em fechar. Contudo, se a terceira temporada significar esperar mais cinco anos, o público pode esquecer as regras do jogo. Por enquanto, “O Homem das Castanhas” continua sendo um exercício de paciência — tanto para os personagens que tentam se reconciliar, quanto para os fãs que aguardam o próximo movimento.

Assista ao trailer de “O Homem das Castanhas – Temporada 2”: