Sinfonia e emoção: Pedro Mariano e Orquestra Villa-Lobos celebram a MPB no Teatro Sabesp

Ao Vivo Brasil Música

Por Adriana Maraviglia

A noite do projeto Trilhas no Teatro – Clássicos da MPB, na última quinta-feira (30/04) no Teatro Sabesp Frei Caneca, foi uma grande celebração da canção brasileira, esse patrimônio de todos nós que sempre nos lembra o quanto este país é abençoado. Sob a regência do maestro Adriano Machado, a Orquestra Sinfônica Villa-Lobos envolveu com elegância as melodias mais conhecidas do cancioneiro nacional, enquanto Pedro Mariano, trouxe para a apresentação algumas pérolas de seus álbuns gravados ao vivo, transitando entre nostalgia e intimidade com aquela voz que nunca deixa de arrepiar. A parceria entre maestro e cantor, vale lembrar, não é de agora — Machado participou da turnê do álbum ao vivo “DNA”, entre 2018 e 2019.

O medley inicial de Tom Jobim, que abriu o espetáculo com “A Felicidade”, “Desafinado”, “Anos Dourados” e “Se Todos Fossem Iguais a Você”, estabeleceu imediatamente qual seria o tom da noite: delicado, seguro e generoso. A sequência de clássicos que se seguiu — de “Chega de Saudade” a “Garota de Ipanema”, passando pelo samba de “Aquarela do Brasil” e “Brasil Pandeiro” — ganhou novas cores orquestrais sem jamais perder a essência que os tornou imortais.

“Eu Sei Que Vou Te Amar” e “Manhã de Carnaval”, mudaram o clima com direito a solos de violino arrepiantes do spalla Rodrigo Mozer.

As imagens projetadas no telão que fazia o cenário do fundo do palco acrescentaram uma camada visual e poética à experiência. Vídeos e composições gráficas ajudaram a lembrar da beleza do Rio da Janeiro, dialogando diretamente com as canções de forma inteligente e sensível, evocando paisagens urbanas e marinhas em “Garota de Ipanema”, pintando a memória afetiva de um país tropical em “Aquarela do Brasil” e transformando o concerto em uma vivência sensorial completa, onde som e imagem caminhavam juntos.

Pedro Mariano – foto: Valéria Maraviglia

Um detalhe que merece registro é a presença constante de Leandro Matsumoto, baixista da banda que acompanha Pedro Mariano em seus shows. Diferente de participações pontuais, Matsumoto esteve em cena durante todo o concerto, integrando-se à Orquestra Villa-Lobos com naturalidade e oferecendo coesão e familiaridade ao conjunto. Sua atuação reforçou a ponte entre o universo pop do cantor e a roupagem sinfônica, evitando que a passagem de um território a outro soasse abrupta ou deslocada.

No bloco em que a Orquestra recebeu seu convidado especial, faixas como “Acaso”, “Certas Coisas” e “Sangrando” — esta última de Gonzaguinha, mas entregue com a assinatura inconfundível de Mariano — deram ao público um encerramento pessoal e contemporâneo. Foi o momento em que o cantor deixou de lado o papel de mero intérprete para se mostrar o artista completo.

Ficou a certeza de que a tradição da MPB segue viva quando tratada com respeito e imaginação — e que o projeto Trilhas no Teatro, com sua proposta de popularizar a música sinfônica por meio de repertórios acessíveis e temáticos, cumpre seu papel com rigor artístico e sensibilidade. A noite agradou tanto aos saudosistas que suspiraram com Tom Jobim quanto àqueles que buscam ver velhos clássicos sob uma luz nova. Que venha o próximo concerto.

Maestro Adriano Machado e Pedro Mariano – fotos: Valéria Maraviglia