Chegando nesta quinta-feira (23/04) aos cinemas brasileiros, um dos filmes mais aguardados de 2026, a cinebiografia “Michael”, do diretor Antoine Fuqua, tenta trazer para as telas a trajetória do Rei do Pop. E confesso que saí da pré-estreia com a sensação de ter visto, ao mesmo tempo, um espetáculo de tirar o fôlego e uma oportunidade perdida de compreender melhor o ser humano por trás do Mito.
O filme é produzido por Graham King, o mesmo nome por trás do fenômeno “Bohemian Rhapsody” – que, aliás, ganhou Oscar e arrastou multidões ao cinema. A fórmula está toda aqui: recriação caprichada de shows icônicos, trilha sonora estourada no talo e um protagonista que incorpora o ídolo de forma assustadoramente precisa. Funciona para as massas? Sem dúvida. Mas também repete os pecados do antecessor ao varrer para debaixo do tapete quando a coisa fica mais pesada.
O calcanhar de Aquiles do longa se chama roteiro. O problema é claro e tem nome e sobrenome: a família Jackson assinando a produção executiva. A impressão que fica é que, para manter o espólio satisfeito, os roteiristas evitaram mergulhar nos episódios mais espinhosos da vida do cantor. Tudo é tratado como se houvesse muito medo de arranhar a imagem do ídolo.
Nesse quesito, uma ausência berra na tela: Janet Jackson, a irmã que mais sucesso fez da família de artistas, depois do próprio Michael, decidiu manter-se distante do projeto. LaToya, a outra irmã, revelou recentemente que a cantora foi convidada e “recusou gentilmente”. Respeito a decisão, mas o silêncio dela, quando tantos familiares aparecem nos créditos finais, é um sinal de que talvez nem todos na família aprovem essa versão açucarada da história.
Mas nem tudo são problemas. Se o roteiro tropeça, o elenco levanta o filme no braço. Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, é um raio de luz. Mais do que uma imitação, em alguns momentos, parece que estamos revendo o gênio que era Michael Jackson. A semelhança física assusta, mas é nos números musicais que ele arranca suspiros. Cada coreografia, cada gestual recriado com uma precisão cirúrgica capaz de convencer até o fã mais cético. Também não tem como deixar de falar da fofura que é o pequeno Juliano Valdi vivendo o pequeno Michael ainda criança.
E por falar em atuação, Colman Domingo entrega mais uma aula. Como Joe Jackson, o patriarca, ele não alivia. Domingo mostra o pai tirano, o homem que via no filho um bilhete para sair da pobreza e explorou o gênio que tinha em casa sem dó nem piedade. É desconfortável, cruel e magnético.
Por causa desses números musicais, digo sem medo: este é um filme para ser visto na maior tela possível, IMAX de preferência. Quando “Billie Jean” explode ou “Beat It” ganha vida, a experiência é imersiva. Com a semelhança física de Jaafar e a recriação cuidadosa das apresentações que ficaram na memória coletiva, o filme emociona. Você sai do cinema com as músicas na cabeça e os olhos marejados de nostalgia. Mas fica aquele gosto de “e se?”. A sensação de que vimos apenas a casca dourada, o show, e não o homem atormentado por trás das cortinas.
