Em um momento especialmente delicado para a democracia do Brasil e para o povo brasileiro, no qual ameaças externas trazem de volta todo o horror autoritário que já vivemos antes, chega aos cinemas “Anistia 79”, o novo e corajoso documentário de Anita Leandro, com estreia hoje em diversas cidades brasileiras.
A obra não se contenta em ser um álbum de memórias. É um confronto direto com o que o país escolheu esquecer: que a transição para a democracia foi feita sobre os escombros de um regime que matou, torturou e roubou — e que nunca pagou por isso.
Premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes — levando tanto o prêmio da crítica quanto o do Júri Popular —, o filme parte de uma descoberta quase cinematográfica por si só. Em 2015, durante uma pesquisa em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, em Paris, a diretora encontrou um material precioso e inédito: quase duas horas de imagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979. Filmadas pelo exilado Hamilton Lopes dos Santos com uma câmera alugada, essas películas permaneceram esquecidas em um porão por quase meio século .
Mas “Anistia 79” vai além de um simples compilado de arquivo. Anita constrói um dispositivo sensível e inteligente: ela reúne 11 pessoas que participaram daquele evento histórico — entre eles, Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco e a própria Denise Crispim — e as coloca diante das imagens de seu próprio passado. O resultado é um exercício de arqueologia emocional de tirar o fôlego.
O ponto de partida e o fio condutor da narrativa é Denise Crispim. A abertura do filme é devastadora: imagens do Tribunal Bertrand Russell II, em 1974, onde o depoimento de Denise sobre a tortura e assassinato de seu companheiro, Eduardo Collen Leite (o Bacuri), é lido por um jurista, pois ela não consegue falar. Seu corpo, ali, é um testemunho silencioso do terror.
Décadas depois, reencontramos Denise não como uma vítima muda, mas como uma mulher que, ao rever os arquivos, apresenta seus familiares e amigos à filha, tecendo comentários sobre os militantes que aparecem na tela. Como observou a crítica especializada, o filme oferece a ela um gesto de reparação que o Estado jamais concedeu: a possibilidade de nomear e de se reconectar com sua própria história. Aos poucos, o trauma cede espaço à memória, ainda que dolorida.
A diretora, que também assina a montagem ao lado de Isabel de Castro, constrói uma edição que, como ela mesma define, é “lacunar, cheia de buracos”. Não se trata de uma aula de história didática. A força de “Anistia 79” está justamente em criar um espaço para que o espectador ocupe esses intervalos, para que ele próprio faça sua montagem entre o passado e o presente. As imagens não servem apenas para ilustrar; elas são convocadas para um confronto direto com a nossa realidade.
E aqui mora o grande acerto político do filme. Ao mostrar a conferência e as esperanças de 1979, o longa escancara o fracasso da transição brasileira. A Lei da Anistia, que completa 47 anos na próxima semana, não apenas concedeu o perdão aos agentes da repressão, como deixou intacto o aparato repressivo. Como observa a própria diretora, a formação das polícias militares permanece a mesma de décadas atrás, com manuais que ainda tratam o cidadão como “inimigo interno” .
É nesse ponto que “Anistia 79” se torna um filme sobre o agora. Ao ouvir os discursos de lideranças como Manoel da Conceição — que já em 1979 alertava para o perigo de uma “anistia concedida” que mantinha as estruturas de poder intactas —, somos forçados a perceber que o “entulho autoritário” (como define Anita) segue erguido entre nós.
Há quem diga que os 105 minutos de projeção poderiam ser mais enxutos, e, de fato, em alguns momentos a costura entre as falas e os arquivos se alonga. No entanto, essa sensação de imersão quase ritualística é parte da proposta. O silêncio das plateias, descrito pela diretora como uma “liturgia”, prova que o filme não busca entreter, mas sim provocar uma experiência catártica e reflexiva .
“Anistia 79” é um documentário sobre a emoção de pessoas que, diante de suas próprias imagens, revisitam expectativas e frustrações de uma luta que segue inacabada. É um grito contra a impunidade que persiste e um lembrete de que, neste país, o passado ainda não passou — ele está vivo, pulsando e, como as imagens de Nanterre, esperando para ser confrontado.
Vale a pena conferir. E conferir com urgência.
