Há um tipo de filme que nos incomoda não pelo susto fácil, mas pelo espelho que coloca diante do nosso próprio tempo. “Conspiradores”, do diretor Roger Gual, que estreou ontem no catálogo da Netflix, é exatamente essa espécie de obra inquietante. E é assustador não porque tenha monstros ou jump scares, mas porque mostra, com uma frieza documental, como uma mente humana pode ser sequestrada por mentiras publicadas em escala industrial. O filme acompanha Ruth (Stéphanie Magnin), uma DJ de 30 anos que vive em Berlim e retorna à sua cidade natal na Galícia após a morte misteriosa da mãe. Lá, encontra o pai, Martín (José Coronado), um policial aposentado irreconhecível: amargurado, agressivo, com a casa forrada de câmeras e anotações codificadas, completamente dominado por uma teia de teorias da conspiração envolvendo farmacêuticas, sequestros e uma rede global de manipulação.
O roteiro, assinado por Carlos Montero e Darío Madrona (os mesmos criadores de “Elite”), tem a inteligência de não transformar a conspiração em pano de fundo exótico, mas no motor da devastação. O que vemos é um homem que, incapaz de lidar com a dor e a culpa, encontrou nas teorias da conspiração publicadas online uma muleta para reorganizar o caos interno. E o filme nos coloca exatamente na mesma posição de dúvida da protagonista: a cada cena, oscilamos entre acreditar que Martín é um assassino perigoso ou apenas um homem cuja mente quebrou. É nesse jogo de desconfiança que “Conspiradores” acerta em cheio. Gual abandona os clichês do suspense de ação para construir uma tensão que cresce pelo desconforto, pelo peso dos silêncios, pela forma como o luto distorce a percepção da realidade. As pistas existem, mas raramente oferecem uma conclusão definitiva — e é exatamente essa ambiguidade que torna a experiência tão sufocante quanto necessária.
O que torna o filme verdadeiramente assustador, no entanto, é sua dimensão política. “Conspiradores” não é sobre um louco isolado; é sobre um fenômeno global. A radicalização de Martín não vem do nada — ela é alimentada por algoritmos que transformam qualquer investigação em confirmação, que tornam cada vez mais difícil separar realidade de fantasia. O filme nos lembra que não estamos imunes. Que a dor, a solidão e a necessidade desesperada de encontrar explicações podem transformar qualquer um de nós em presa fácil para as engrenagens da desinformação. E é aí que está o golpe mais cruel: no fim das contas, a verdadeira conspiração talvez não seja a que Martín acredita, mas a que nos faz acreditar que estamos imunes a ela. José Coronado entrega uma atuação magistral, construindo um personagem que transita entre a fragilidade e a obsessão com uma precisão cirúrgica. Stéphanie Magnin é o contrapeso perfeito — acompanhamos pelos olhos dela o choque de reconhecer e, ao mesmo tempo, estranhar o próprio pai.
“Conspiradores” não inventa a roda do suspense familiar, mas traz uma urgência que poucos filmes do gênero conseguem alcançar. É um retrato da paranoia contemporânea, um alerta sobre como as mentiras publicadas online podem destruir não apenas indivíduos, mas famílias inteiras. E, acima de tudo, um lembrete incômodo de que, em tempos de excesso de informação, a maior das conspirações talvez seja acreditar que a verdade ainda é óbvia.
