Foreign Tongues: a juventude eterna dos Rolling Stones

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Por Adriana Maraviglia

Menos de 3 anos depois de “Hackney Diamonds”, os Rolling Stones estão de volta. “Foreign Tongues” chegou ao mundo no último dia 10/07, com uma nova safra de canções que reafirmam a força de uma banda que, exatamente neste dia 12/07, completa seus 64 anos de rock n’ roll, mas com ‘corpinho’ de 20.

O 25º álbum de estúdio “chega chegando” com “Rough and Twisted”, uma faixa stoniana por excelência, em que a banda abre as asas e se lança. Com uma voz que parece não sentir o tempo, Mick Jagger canta, enquanto a banda despeja aquela competência musical de sempre, em um blues elétrico com direito ao piano “honky tonk” de Ben Waters, a sempre afiada slide guitar de Ronnie Wood e a gaita sensacional de Jagger.

A segunda faixa foi o primeiro single a sair do álbum, “In the Stars”. A sonoridade vai levar os fãs a um passeio por uma fase bem específica da banda: aquele momento entre “Steel Wheels” (89) e “Voodoo Lounge” (94), em que os Stones abriram as portas para a sonoridade da época que estavam vivendo. A canção já ganhou um vídeo feito por IA que traz a imagem dos músicos em uma outra fase da carreira, tentando ganhar um biscoito e seduzir os jovens de hoje, lembrando-os que todas aquelas rugas que apareceram em seu rosto ultimamente não estiveram sempre lá. Eles apenas são jovens há mais tempo.

A produção, novamente assinada por Andrew Watt, segue a mesma linha de “Hackney Diamonds”, mas com uma diferença crucial: desta vez, a sonoridade ganhou mais espaço e respeitou o trabalho da banda, sem aquela compressão que comprometeu um pouco o brilho do disco de 2023. O resultado é um álbum que soa mais orgânico, permitindo que cada instrumento respire.

Como seu antecessor, o disco reserva espaço para um time de convidados que faria qualquer festival parecer modesto. Paul McCartney, Robert Smith, Steve Winwood, Chad Smith e até Bruno Mars aparecem em faixas específicas, mas a beleza está na discrição: nenhum deles está lá para “mudar o jogo”, como Lady Gaga fez em “Hackney Diamonds”. Eles entram como músicos de estúdio, não como estrelas, provando que, quando os Stones chamam, você aceita o que vier — mesmo que seja para tocar apenas um cowbell, como fez Bruno Mars na dançante “Never Wanna Lose You”.

Com uma sonoridade que traz à memória a maravilhosa “Faraway Eyes”, “Ringing Hollow” é uma das faixas mais políticas do disco. A letra traz uma visão crítica sobre os Estados Unidos — um país que, a cada novo dia, se aproxima mais do extremismo das ditaduras sanguinárias e se distancia de qualquer ideia de democracia. Mick Jagger conduz a narrativa com a precisão de quem observa o mundo há décadas. Quase escondido na mixagem, surge o backing vocal de Keith Richards, um rosnado grave que surpreende. É o tipo de detalhe que faz a diferença: a voz de Keith não está lá para brilhar, mas para dar à música a textura que só quem conhece a banda há 60 anos sabe como entregar.

Capa de Foreign Tongues – foto: Divulgação

E quando o solo de Ronnie Wood entra em “Back In Your Life”, uma balada já linda daquelas que Mick Jagger parece compor toda quarta=feira à noite, você não está ouvindo apenas um guitarrista tocando. Está ouvindo a dor de um músico que perdeu dois amigos na mesma semana — Brian Wilson e Sly Stone. Wood disse que fez aquele solo em um take só, nove minutos de pura emoção, e que nem sentiu que foi ele quem tocou: a guitarra se tocou sozinha. Depois de ouvir isso, fica difícil não ouvir a música de outro jeito.

Ainda no quesito emoção, “Hit Me In The Head” tem a participação de Charlie Watts, gravada em uma de suas últimas sessões. A faixa, que originalmente teve a produção de Don Was, foi regravada reaproveitando o trabalho do Charlie, e chama atenção dentro do conjunto deste novo álbum por sua crueza e energia rock n’ roll.

A faixa que carrega o maior peso emocional, porém, é a cover de “You Know I’m No Good”, de Amy Winehouse. A escolha partiu de Keith Richards, que sempre esperou encontrar a cantora, e de Ronnie Wood, amigo próximo dela. A gaita de Jagger substitui os metais originais, transformando a melancolia da versão de Amy em um blues de peso, como uma homenagem tardia a uma artista que cruzou o caminho da banda e se foi embora cedo demais. Como disse Richards: “Ela era para ter se encontrado com a gente em algum lugar.” Com esse disco, finalmente aconteceu.

De muito tempo para cá, Keith Richards assume o vocal principal de pelo menos uma faixa. Em “Foreign Tongues”, esta música é “Some Of Us”, uma daquelas baladas típicas do guitarrista, com o diferencial de um dueto lindo com Mick Jagger que a transforma em um dos melhores momentos do disco.

“Foreign Tongues” fecha com outro cover, “Beautiful Delilah” de Chuck Berry, que parece ter saído diretamente das sessões de “Blue & Lonesome” e traz uma versão que consegue ser crua e linda. Dá a impressão de se estar junto, na sala de ensaio, enquanto esses quatro caras (com a presença fantasma de Charlie Watts) se divertem tocando como se ainda estivessem no Marquee Club, em 1962. É o encerramento perfeito para um disco que celebra o passado sem viver dele, e que prova que, para os Rolling Stones, o rock n’ roll nunca foi uma questão de idade — foi sempre uma questão de atitude.

Surpreendentemente bom, “Foreign Tongues” não tenta reinventar os Rolling Stones. Ele apenas mostra que eles continuam capazes de fazer o que bem entenderem. Aos 64 anos de carreira, a banda entrega um álbum que pode até revisitar o passado, mas respira no presente e ousa apontar para um futuro, mantendo esses gênios da música no topo, mesmo depois de terem passado dos 80 anos. O disco ainda prova que eles continuam relevantes e, para quem teve a sorte de ouvir, fica a certeza: a melhor fase dos Stones pode ser sempre a atual.

Ouça agora “Foreign Tongues” no Spotify:

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