A não ser que você seja um completo alienado, que faz questão de nem passar perto das notícias que vem sido divulgadas nos últimos dias no palco caótico da geopolítica, você provavelmente vai se interessar bastante por “O Mago do Kremlin”, um thriller político que está chegando hoje, quinta-feira (09/04), aos cinemas brasileiros.
Dirigido pelo francês Olivier Assayas, o longa adapta o best-seller de Giuliano da Empoli e nos conduz por uma jornada sufocante pelos corredores do poder russo, partindo do caos pós-soviético dos anos 1990 até a consolidação da autocracia que se mantem no poder há 25 anos. A grande sacada do filme não é a caricatura esperada pelo Ocidente, mas sim uma anatomia fria e perturbadora de como um sistema cria monstros — e de como, muitas vezes, nós, ocidentais, não temos a dimensão exata do que está acontecendo.
Se você espera encontrar apenas uma sátira sobre o presidente russo, é melhor rever seus conceitos. “O Mago do Kremlin” é, antes de tudo, um filme sobre o teatro da política e os muitos recursos que tem à disposição nesses tempos tecnológicos que estamos vivendo.
O verdadeiro protagonista não é o “czar” Vladimir Putin, vivido com uma frieza magnética e burocrática por Jude Law, mas sim Vadim Baranov (um soberbo Paul Dano). Baranov, uma figura inspirada no estrategista real Vladislav Surkov e sua trajetória que o leva de um início como artista de vanguarda a produtor de reality shows até, finalmente, tornar-se o mentor por trás da fabricação de um líder.
É através de sua lente que vemos a Rússia se transformar: de uma explosão de liberdade boêmia e gangsterismo desenfreado nos anos 1990 para uma autocracia onde a imagem é a única verdade que importa. Assayas nos mostra, com requintes de crueldade, o momento em que o idealista se rende ao pragmatismo sujo e passa a manipular a realidade.
E aqui reside o maior mérito e o maior perigo do filme. A crítica internacional se dividiu, e não é para menos. Há quem chame a obra de essencial para entender o estado totalitário moderno, enquanto outros apontam um risco real de que a narrativa, ao humanizar o processo, possa ser apropriada como propaganda pelo próprio regime. A produção, que não conseguiu autorização para filmar na Rússia e foi realizada na Letônia, já enfrentou resistência e acusações de ecoar discursos do Kremlin. Essa ambiguidade é o grande trunfo do diretor. Jude Law, sem sotaque forçado ou trejeitos caricatos, entrega um Putin quase sem expressões, um burocrata narcisista cujo poder reside exatamente na sua capacidade de não entregar nada, de ser uma superfície vazia onde seus seguidores projetam a ideia de estabilidade e força.
Esta é a política do século XXI: não a imposição bruta da força, mas a sedução da estabilidade. Assayas destaca que a verdadeira inovação desse sistema não é russa, mas global. As técnicas de manipulação, a transformação da propaganda em uma forma de arte e o controle das narrativas que vemos no filme são os mesmos que assombram as democracias ocidentais hoje. Ao retirar o foco exclusivo da “vilania” de Putin e colocá-lo na engrenagem que o produziu, o diretor nos entrega um espelho desconfortável. “O Mago do Kremlin” não nos mostra o Oriente exótico e perigoso que Hollywood nos ensinou a temer nos muitos filmes sobre a Guerra Fria; ele nos mostra a mecanização fria do poder, que não reconhece fronteiras geográficas ou ideológicas.
O filme é longo, em alguns momentos episódico e expositivo demais, mas sua potência reside em mostrar bastidores que a mídia ocidental jamais se atreveria a mostrar. Ao retratar a ascensão de um dos maiores protagonistas da história recente, Assayas recusa o simplismo maniqueísta dos telejornais que transformam Putin em um mero vilão, sempre errado, uma ameaça a tudo de bom que existe no mundo. Em vez disso, ele o coloca como a peça central — mas não a única — de um teatro de horrores que foi construído por mãos humanas, movidas por ambição, medo e uma total falta de escrúpulos.
“O Mago do Kremlin” é, portanto, um alerta: antes de apontar o dedo para o “mago” ou para o “czar”, talvez seja mais produtivo olharmos para o público que aplaude o truque e treinarmos os olhos para que eles enxerguem os fios que a mídia ocidental usa para manipular o poder político do lado de cá do mundo.
