Não espere respirar aliviado após a cena final de Nuremberg, novo filme de James Vanderbilt que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (26/03). Em vez de catarse, o longa provoca desconforto e perplexidade ao lembrar que, embora os monstros de hoje não usem bigodes esquisitos nem botas de cano alto, a desumanidade e a xenofobia seguem vivas.
Baseado no livro The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, o filme foge do formato tradicional de “drama de tribunal” e se concentra no duelo psicológico entre o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek, contido e obsessivo) e Hermann Göring (Russell Crowe, em atuação magistral). Enquanto o promotor Robert H. Jackson (Michael Shannon) luta para consolidar o julgamento internacional como punição exemplar, Kelley busca compreender a anatomia do mal para que o horror não se repita.
Vanderbilt, roteirista de Zodíaco (2007), constrói tensão com precisão. Crowe entrega um Göring perturbador: não um monstro atrás das grades, mas um homem inteligente e cínico, capaz de manipular e inverter papéis. Em uma cena marcante, ele questiona se a diferença entre carrasco e herói não seria apenas o tamanho do canhão. É nesse ponto que parte da crítica acusa o filme de “lacração”, mas a verdade é que Nuremberg não fala apenas do passado — é um alerta para o presente.
O diretor insere trechos do documentário Nazi Concentration and Prison Camps, exibido no tribunal real em 1945, para confrontar espectadores com a materialidade do horror. Assim como os juízes precisaram ver para não normalizar o inaceitável, nós também precisamos despertar diante do que acontece hoje. A fala que ecoa é clara: “Aconteceu porque as pessoas permitiram que acontecesse, porque não se levantaram até que fosse tarde demais”.
O elenco reforça a força da narrativa. Shannon encarna Jackson como a espinha moral do julgamento; Leo Woodall, no papel do tradutor, acrescenta humanidade ao roteiro; e Crowe, soberbo, lembra que arrogância e falta de escrúpulos ainda são confundidas com liderança. A fotografia fria e claustrofóbica amplia a sensação de opressão, enquanto os diálogos mantêm o espectador atento durante os 148 minutos.
Mas não há final fácil. Nuremberg lembra que, embora líderes nazistas tenham sido punidos, o espírito que os criou atravessou o tempo e hoje alimenta novas ambições de poder. O tribunal foi o marco da ideia de que existe uma lei acima das nações, mas essa herança vem sendo sistematicamente desrespeitada. O filme, portanto, é mais que uma reconstituição histórica: é um espelho incômodo da atualidade, em que discursos de ódio e ataques às instituições voltam a colocar o mundo em risco.
Assistir a Nuremberg em 2026 é reconhecer que a “banalidade do mal”, descrita por Hannah Arendt, não foi uma exceção alemã, mas uma possibilidade humana sempre à espreita — e que ganha força quando damos voz e poder político a gente ruim e desprezível.
