Sherlock Holmes sempre atraiu e atrairá a curiosidade do público. Mesmo sendo um personagem centenário, toda vez que o cinema decide trazê-lo de volta, o sucesso vem junto. Não seria diferente com Jovem Sherlock, nova série da Prime Video que, desde sua estreia no dia 4 de março, ocupa o primeiro lugar de audiência na plataforma — um feito que diz muito sobre nossa fome infinita de origens.
Dirigida por Guy Ritchie, a primeira temporada de oito capítulos chegou à plataforma de uma só vez, num claro convite à maratona. O destino da viagem? A juventude de um mito que, aos 19 anos, ainda não ocupa o 221B da Baker Street. Pior: ele ainda está tentando decidir o que fazer da própria vida, e isso, convenhamos, é um ponto de partida e tanto.
Ingressando na Universidade de Oxford, o Sherlock de Hero Fiennes Tiffin é um rapaz de pulsos inquietos, olhar desconfiado e uma relação espinhosa com a própria família. A série faz questão de nos lembrar, a cada flashback bem calibrado, que a mente brilhante do detetive foi forjada em um ambiente caótico. Há um pai distante (Joseph Fiennes, numa atuação contida e precisa) que parece carregar o peso de um afeto incapaz de se comunicar. É um prato cheio para quem, como esta cronista, sempre desconfiou que gênios não surgem do nada, mas sim de escombros afetivos bem guardados.
Guy Ritchie, que já provou saber coreografar o caos nos filmes com Robert Downey Jr., repete aqui a dose de ação estilizada, mas agora com a liberdade que o formato série permite. A câmera passeia por Oxford como se fosse um personagem, e as cenas de luta — sim, porque esse Sherlock também sabe brigar — têm a coreografia suja e rente que virou marca do diretor. Só que, diferentemente dos filmes, aqui o mistério não é apenas um artefato a ser decifrado. O primeiro caso, que começa como um assassinato na universidade e logo se desdobra numa conspiração de contornos globais, entra menos no jogo do “quem matou?” tradicional e funciona, antes, como um espelho para as angústias de um rapaz que tenta, desesperadamente, provar algo para o mundo e para si mesmo.
O grande trunfo da série, no entanto, pode ser também sua aposta mais arriscada para os puristas. Ao introduzir Moriarty (Dónal Finn) não como o inimigo final, mas como um colega de universidade e parceiro inicial de investigação, O Jovem Sherlock reconfigura o tabuleiro afetivo do personagem. A dinâmica entre os dois tem uma química inegável, uma mistura de admiração e rivalidade que promete render frutos (e dores de cabeça) no futuro. É um golpe de ousadia narrativa que, cá entre nós, faz todo o sentido: onde mais o maior dos inimigos poderia nascer senão ao lado, numa intimidade que só o tempo e a traição conseguem estragar? O texto, assinado por Ritchie ao lado de Matthew Parkhill, aposta nessa humanização sem medo de soar herege, e o resultado é um drama jovem que respira, erra e se apaixona antes de se tornar a lenda gelada que todos conhecemos.
Visualmente, a série é um deleite. A fotografia não tem medo de sujar as mãos na fuligem londrina, mas também sabe quando abrir o quadro para a beleza melancólica dos campos ingleses. O cuidado com os detalhes de época é evidente, mas há uma liberdade contemporânea no ritmo da edição e na trilha sonora que impede a produção de virar peça de museu. É um diálogo entre passado e presente que funciona, especialmente quando a câmera se detém nos olhos de Hero Fiennes Tiffin. O ator, que carrega um DNA privilegiado para o cinema (sobrinho de Joseph e Ralph Fiennes), entrega um Sherlock vulnerável sem ser frágil, irritadiço sem ser antipático.
Se a temporada existe como um primeiro ato de uma franquia maior, ela cumpre seu papel com eficiência. Apresenta os personagens, instala os conflitos familiares — Mycroft (Max Irons) surge como a versão institucional do que Sherlock ainda pode (ou não) se tornar — e planta as sementes de uma conspiração que, imagina-se, renderá boas temporadas futuras. Mas o que fica, ao final dos oito episódios, não é apenas a vontade de saber em que direção o mistério global vai se desenrolar. Fica a curiosidade genuína de ver como esse garoto, que ainda tropeça nos próprios sentimentos e na imaturidade afetiva, vai, aos poucos, se transformar no homem que decide morar sozinho porque gente, no fundo, é um dado a ser analisado.
Jovem Sherlock é, antes de tudo, uma série sobre origem, que mostra como um jovem privilegiado começa a afiar seus superpoderes de dedução no meio do caos da própria família. Que venham os próximos casos — e que a bagunça continue.
