Buddy Guy e o blues como ponte entre mundos no Tiny Desk

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Por Adriana Maraviglia

O Tiny Desk recebeu um convidado muito especial no final de fevereiro de 2026, fechando o Mês da História Negra com chave de ouro: Aos 89 anos, Buddy Guy, o último gigante de pé de uma geração que incluiu Muddy Waters, B.B. King e John Lee Hooker não veio apenas para provar que “ainda não terminou com o blues” — título do seu álbum mais recente e vencedor do Grammy de Melhor Disco de Blues deste ano, o nono de sua carreira — mas para apresentar ao mundo seu herdeiro musical e cinematográfico.

Se existe uma imagem que define essa curta apresentação, de apenas quatro músicas, é a cumplicidade entre o olhar experiente de Guy e a energia transbordante de Miles Caton, seu parceiro de cena no filme Pecadores (Sinners), de Ryan Coogler. Enquanto Guy ataca sua Stratocaster decorada por bolinhas, um instrumento que virou uma espécie de assinatura visual do genial bluesman, tocando com a precisão de quem inventou tudo aquilo que os guitarristas de rock passariam décadas tentando copiar, Caton surge como um contraponto perfeito: jovem, voz incendiária e um violão que aprendeu a tocar para fazer o filme. O diretor do filme, aliás, mostrou faro de águia ao escalar esse garoto do Brooklyn, criado numa família de cantores gospel, para viver a versão jovem de Sammie Moore — personagem que Guy interpreta seis décadas depois. Ali, naquele cenário apertado que é uma tradição deste programa, a ficção encontrava a realidade: Caton é exatamente o que Sammie deveria ser, um prodígio cuja música atravessa o tempo.

A escolha das canções não poderia ser mais certeira. Guy abre com “Damn Right, I’ve Got the Blues”, faixa-título do disco de 1991 que o recolocou no centro do mapa blues. Aos 89 anos, sua voz oscila entre o sussurro de quem guarda segredos demais e o rosnado de quem ainda tem contas a ajustar com o mundo — e, quando ele desliza os dedos pelo braço da guitarra, o tempo simplesmente desaba. Segue-se “Hoochie Coochie Man”, aquele clássico de Willie Dixon que Muddy Waters imortalizou e que Guy trata com a reverência de quem não apenas conheceu os titãs, mas sentou-se à mesa com eles. É impossível não sentir o peso da história quando ele modula a frase “the gypsy woman told my mother” — quantas vezes ele não deve ter ouvido Muddy cantar esses mesmos versos? Mas é quando Caton retorna ao palco — após uma pausa para Guy relembrar, com aquele humor ácido de quem já viu de tudo, que os bluesmen antigos “xingavam de verdade”, ao contrário dos rappers que usam os palavrões para posar de polêmicos — que o concerto ganha outra dimensão.

“Travelin'” e “I Lied to You” chegam como a alma secreta do filme. São canções que funcionam dentro da narrativa de Pecadores como manifestações de um talento sobrenatural — no longa, a música de Sammie é tão poderosa que atravessa dimensões e atrai criaturas das sombras. E ali, sem os truques do palco e
sob as luzes fluorescentes da sede da NPR, vemos os dois intérpretes recriarem essa dinâmica em tempo real. “I Lied to You” — indicada ao Oscar e escrita por Raphael Saadiq e Ludwig Göransson — ganha contornos de jam session. Guy provoca, estica notas, testa os limites do garoto. Caton, longe de se intimidar, responde à altura: seu vocal criado nos bancos de igreja ao lado da mãe e da tia, explode num registro que lembra os grandes soulmen dos anos 60. É a passagem do bastão acontecendo diante dos nossos olhos, sem discursos, apenas com a música como testemunha.

Vale registrar o trabalho impecável da banda que sustentou esses momentos: Dan Souvigny ao piano, Ric Hall na guitarra base, Orlando Wright no baixo e Pooky Styx na bateria formam uma cozinha sólida, daquelas que permitem a um gigante como Guy viajar à vontade sem jamais perder o chão. A direção do Tiny Desk, capitaneada por Bobby Carter, capta cada olhar cúmplice, cada risada contida quando Guy faz piadas de duplo sentido — perto de chegar aos 90 anos, o bluesman mantém o entusiasmo jovial e o olhar brilhante de quem ainda sente prazer em subir ao palco.

Quando a apresentação termina, fica a sensação de que testemunhamos algo muito maior. Buddy Guy é hoje uma das últimas conexões vivas com a era dourada do blues de Chicago, aquele som elétrico que migrou do Delta do Mississippi para os clubes enfumaçados do norte e, de lá, conquistou o mundo. Mas ao lado de Miles Caton — 20 anos, sangue novo, estrada pela frente — ele nos lembra que o blues jamais será um gênero morto. Enquanto houver jovens dispostos a aprender os segredos da guitarra, enquanto a chama desse gênero que ajudou a inventar o rock n’roll estiver acesa e enquanto houver cineastas como Ryan Coogler dispostos a construir pontes entre gerações através da música, o blues continuará sendo o que sempre foi: a voz de um povo transformando dor em beleza. Que venham os próximos 90 anos, Buddy.
E que o jovem Caton esteja disposto a seguir as pegadas desse gigante e carregue ainda mais longe essa chama.


Setlist:

  1. “Damn Right, I’ve Got the Blues”
  2. “Hoochie Coochie Man”
  3. “Travelin'” (com Miles Caton)
  4. “I Lied to You” (com Miles Caton)

Músicos:
Buddy Guy (vocal, guitarra), Miles Caton (vocal, guitarra), Dan Souvigny (piano), Ric Hall (guitarra), Orlando Wright (baixo), Pooky Styx (bateria)

Para ver: O concerto completo está disponível no canal do NPR Music no YouTube. Pecadores (Sinners) está disponível na HBO MAX, lembrando que o filme recebeu 16 indicações ao Oscars, incluindo Melhor Canção Original para “I Lied to You”.


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