Há uma qualidade tátil na voz de Pedro Mariano que o tempo não suavizou, apenas tornou mais familiar, sem nunca deixar de surpreender por sua perfeição cristalina. Quem ocupou todas as poltronas do Teatro Paulo Autran neste domingo pós-carnavalesco não veio atrás de pirotecnias vocais ou grandes gestos. Veio celebrar a solidez. E encontrou exatamente isso: um artista no controle absoluto de seu instrumento, dissecando três décadas de ofício.
Abrir a turnê dos 30 anos de carreira em 2026, quando completa 31, é, para o cantor, um gesto de retomada e continuidade. O setlist, generoso em extensão, funcionou como uma cartografia emocional que trouxe novos significados para a expressão “greatest hits”, ou na explicação do próprio artista, as músicas que pontuaram sua trajetória.
Das primeiras interpretações dos anos 1990 às faixas do recente “Novo Capítulo” (2022) – este sim, marcando sua estreia como compositor –, o que se viu foi um artista revisitando suas próprias camadas.
No repertório, canções que iam uma a uma sendo completadas pelo coro dos fãs em uníssono, intercalando pérolas de seu cancioneiro desde sempre – “Cais”, “Nau”, “Tem Dó” – Pedro não apenas presta homenagem: ele reivindica um lugar nessa linhagem. Todas logo reconhecidas pelo público nos primeiros acordes, como deve ser com as canções que acompanham há muito tempo a trilha sonora da vida.

Foi nos momentos de maior intimidade, porém, que o show encontrou seu pulso mais vibrante.
Acompanhado pela banda formada por Renato Silva Júnior (teclados), que também assina os arranjos, Leandro Matsumoto (baixo), Conrado Goys (guitarra) e Thiago Gomes (bateria), o cantor pode entregar ao público uma sonoridade que muitas vezes surpreende por uma grande competência musical.
A conversa com a plateia, despretensiosa e pontuada por risadas, quebrou a solenidade do teatro. Do seu jeito, Pedro compartilhou bastidores, lembrou discos, levou o público pela mão através de sua história. Foi nesse clima que chegou um dos momentos mais emocionantes da noite, “Não Diga Nada”, sucesso dos anos 1980 na voz de Prêntice, a canção veio direto de “A2 Vol.2”, álbum do ano passado, com releituras intimistas de clássicos da MPB. Com Pedro sentado nos degraus do cenário ao lado de Conrado Goys, voz e guitarra, a interpretação reencenou o clima do disco gravado ao vivo.
Mais tarde, ao anunciar que cantaria a música que pela primeira vez o levou às telas da TV, Pedro mergulhou em “Como Nossos Pais”, emocionando ainda mais o público, que aplaudiu de pé.
Ele tomou posse da canção, que nos anos cinzentos da Ditadura lamentava o conformismo dos jovens diante da tragédia que estava instalada no país, interpretada por ele com o mesmo grito de angústia que se ouviu na voz da mãe do Pedro, a monumental Elis Regina.
O bis reservou uma surpresa para os fãs mais antigos do músico. “Distante Calma”, que abria os shows da turnê de “Intuição” (2002), os levou imediatamente de volta ao sofisticado Palace – casa que recebia os grandes nomes da música brasileira e internacional, e que para uma geração inteira representa a era de ouro dos shows em São Paulo. A canção, que na sequência ganhou um trecho de “Miragem” e um retorno à inicial “Era Pra Ser”, fechou o ciclo com a elegância de quem entende que é essencial começar e terminar no mesmo lugar, mesmo que tudo tenha mudado no percurso.
A grandeza de Pedro Mariano como intérprete sempre residiu na capacidade de tornar suas as canções que atravessam seu caminho. Se hoje finalmente se aventura pela composição com propriedade, é porque aprendeu primeiro a servir às canções alheias com a devoção de quem sabe que o canto é, antes de tudo, entrega.

A maturidade vocal de Pedro Mariano mora nos detalhes, nesses tempos em que quase nunca estamos ouvindo a verdadeira voz dos intérpretes, a dele tem uma natureza que dispensa completamente qualquer auxílio eletrônico. Seu canto é um exercício de equilíbrio entre a herança musical inegável e a construção paciente de uma trajetória própria.
Trinta anos depois de começar, Pedro Mariano não precisa mais provar que é herdeiro de algo. Ele prova, a cada nota, que é dono do que canta.
Confira a setlist do show Pedro Mariano no SESC Pinheiros (22/02/2026):
- Era Pra Ser
- De Repente
- Cais
- Nau
- Quase Amor
- Jaeh/Só Me Chamar
- Pode Ser
- Voz no Ouvido
- Da Janela
- Pra Você Dar o Nome
- Não diga nada (Prêntice) A2Vol2
- Tem Dó (Baden Powell e Vinicius de Moraes)
- Simplesmente
- Novo Capítulo
- Antes Que o Mundo Acabe
- Livre Pra Viver
- Como Nossos Pais
Bis: - Distante Calma / Miragem
- Era Pra Ser
