Não é raro um filme de suspense se anunciar como uma experiência de fôlego único para, ao final, revelar-se exatamente o oposto: um exercício de respiração ofegante, sim, mas com a sensação de estarmos correndo no lugar. “Corrida Contra o Tempo”, que chegou ontem à Prime Video, é a prova viva de que uma premissa eletrizante, quando desacompanhada de um roteiro à sua altura, se esgota muito antes da linha de chegada. A ideia central, de fato, é uma armadilha narrativa quase infalível. Maia Marten, uma advogada de defesa brilhante e metódica de Londres, vivida por Gal Gadot, tem sua rotina matinal interrompida por um telefonema que transforma sua vida num pesadelo: seu filho foi sequestrado, e a única regra para vê-lo novamente é simples e brutal — não pare de correr. Se desacelerar, ele morre.
É um gatilho narrativo de instinto primário, e a diretora Kevin Macdonald não perde tempo em mergulhar a protagonista (e o espectador) nesse estado de desespero cinético. A câmera não abandona Maia, acompanhando-a por um labirinto urbano de ruas e túneis de Londres que se tornam um tabuleiro hostil, enquanto a voz distorcida do sequestrador, com a presença vocal de Damian Lewis, dita os passos de uma missão que parece não ter saída. Gal Gadot se entrega de corpo e alma à fisicalidade do papel, suando e ofegando em cada esquina, uma escolha que a afasta da armadura de sua Mulher-Maravilha e a coloca no centro de uma prova de resistência humana. É uma atuação de esforço bruto, que convence no instinto, mas que encontra seus limites quando o filme pede algo mais do que a adrenalina do momento.
E é aí que reside o grande problema. O que era para ser um thriller de alta octanagem se revela, nos momentos de calmaria, um exercício de previsibilidade. O roteiro, escrito por Mark Gibson, funciona como um motor que só sabe acelerar. As reviravoltas, quando surgem, são anunciadas com a sutileza de uma placa de trânsito, e os diálogos, especialmente os longos embates verbais entre Maia e seu algoz telefônico, perdem a força pela falta de uma construção mais profunda. A promessa de uma tensão psicológica constante cede espaço a uma sucessão de obstáculos que, mais do que surpreender, cansam pela repetição. O vilão, onisciente e invencível num minuto, comete deslizes convenientes no seguinte, apenas para que a narrativa possa avançar, como bem aponta a crítica especializada que já lhe conferiu uma desoladora taxa de apenas 9% de aprovação no Rotten Tomatoes.
É um filme que se vende como uma experiência imersiva, mas que muitas vezes troca a construção de suspense por um excesso de estilo. A montagem frenética, os closes extremos e a fotografia que beira o caótico, embora ambiciosos, por vezes evidenciam o vazio narrativo, tentando disfarçar com técnica a falta de substância do roteiro. Aos 84 minutos de projeção, o que se tem é um “suspense de resistência” que cumpre sua promessa mais óbvia — ser um entretenimento rápido e descartável para uma noite descompromissada —, mas falha em deixar qualquer marca duradoura. É cinema de fórmula, executado com competência técnica, porém desprovido da centelha de criatividade que faria da simples ideia algo verdadeiramente memorável. Para quem busca apenas um passatempo, a corrida pode até ser estimulante. Para quem espera um suspense inteligente que prenda a respiração até o último instante, fica a sensação de ter chegado em casa ofegante, mas sem ter saído do lugar.
