Não importa quantas biografias, especiais ou reprises musicais tentem retratar a Maior Cantora do Brasil, Elis Regina sempre terá um tamanho ainda maior, uma força da natureza impossível de ser contida e muito menos de ser recriada. E talvez seja exatamente por isso que, ao assistirmos “Elis & Eu”, a estreia de hoje na Universal+ dirigida por André Bushatsky, a sensação não seja a de outro documentário, mas a de uma conversa íntima e por vezes dolorosa com a nossa própria memória.
A grande sacada do filme está em seu ponto de partida: a vida da cantora não é recontada pela voz de um narrador ou de um crítico musical, mas sim pelo olhar do filho, João Marcello Boscoli, que já havia navegado por essas águas em seu livro de memórias de 2019, que dá título à obra. O diretor Bushatsky utiliza essa premissa com uma delicadeza que desarma, fugindo de qualquer armadilha sensacionalista. Longe de ser mais uma cinebiografia de superfície, o documentário se estrutura como uma colcha de retalhos emocional, costurada por três elementos principais: os depoimentos, as imagens de arquivo e as dramatizações. É importante destacar que essas dramatizações não tentam ludibriar o espectador com a falsa promessa de ver a “verdadeira Elis” na tela. Elas funcionam mais como ecos poéticos, pequenas memórias encenadas que trazem à tona o que as palavras muitas vezes não conseguem expressar, especialmente quando vindas de um filho que tenta reconciliar a figura da mãe com a lenda que o mundo conheceu.
Há uma autenticidade tocante em cada canto do documentário. Quando João Marcello fala, não temos simplesmente o relato de um biógrafo, mas o testemunho de alguém que carrega o peso e o privilégio de ter dividido a vida com uma das maiores artistas do país. E ele não está sozinho nessa jornada: os irmãos Pedro Mariano e Maria Rita também aparecem, cada um trazendo sua própria camada de afeto e memória, ampliando o retrato familiar para além do olhar único do irmão mais velho. As imagens de arquivo, meticulosamente selecionadas, funcionam como contraponto visual das memórias subjetivas, mostrando a Elis que o Brasil inteiro aplaudia, enquanto os depoimentos revelam a mulher por trás da cortina, com suas luzes e sombras. Entre as vozes que ajudam a costurar essa narrativa, surge também a do biógrafo Julio Maria, autor de “Nada Será Como Antes”, que oferece o olhar do pesquisador e a distância crítica necessária para equilibrar tanta emoção. É um exercício constante de equilíbrio entre o público e o privado, o mito e a mãe.
O resultado é um documentário que cativa pela honestidade, por não ter medo de expor as arestas e as complexidades de uma relação familiar atravessada pela genialidade e pela fama. “Elis & Eu” não busca respostas fáceis nem celebrações vazias; ele prefere as perguntas que ficam pairando no ar, como a nota final de um grande show. Em vez de uma homenagem piegas, temos um mergulho profundo e sensível no processo de construção de uma memória afetiva, que nos lembra que, mesmo para aqueles que a amavam, Elis continua sendo esse enigma belo e indomável que a música eternizou.
