Se há uma habilidade que o Brasil desenvolveu até a perfeição, foi a de varrer para debaixo do tapete as histórias que causam desconforto — um defeito coletivo que nos garantiu a fama de possuirmos uma memória curta. Mas o cinema sempre esteve aí para resgatar essas histórias e apresentá-las, de tempos em tempos, às novas gerações.
O acidente com o césio-137, em Goiânia, em 1987, sempre foi tratado como um episódio de terror resumido a uma pequena localidade no mapa, dentro da capital goiana. Ele rendeu, por alguns meses, muito medo e preconceito contra a cidade, fruto da mistura entre o descaso governamental e a ingenuidade de pessoas simples que cometeram um erro fatal — assim descrito e divulgado por reportagens que sequer serviram para alertar a população de que aquele tipo de coisa não poderia acontecer novamente.
A novíssima série “Emergência Radioativa”, que estreou nesta quarta-feira, 18 de março, na Netflix, chega para mostrar ao mundo o lado humano da tragédia. Criada por Gustavo Lipsztein e dirigida por Fernando Coimbra, a produção da Gullane não se interessa pelo tom didático do documentário nem tenta fazer aquele sensacionalismo barato típico desse tipo de história. Pelo contrário. Em cinco episódios, a série faz um movimento raro no audiovisual brasileiro: ela olha para as vítimas daquela tragédia como protagonistas de uma negligência anunciada.
A história de Devair Ferreira (Enevildo na série, interpretado por Bukassa Kabengele), o dono do ferro-velho que comprou o aparelho de radioterapia abandonado, e de sua família — especialmente sua esposa, Maria Gabriela (Antonia na série, interpretada por Ana Costa), e a pequena Leide das Neves (que na série virou Celeste) — finalmente ganha o centro do palco. O roteiro tem a coragem de mostrar que, antes de ser um desastre nuclear, aquilo foi um desastre de gestão, de informação e, acima de tudo, de humanidade. A série nos obriga a encarar a contaminação não pelo ângulo macro, mas pela dor silenciosa de quem levou a cápsula para casa, fascinado pelo brilho incomum.
É impossível falar desse feito sem elogiar o trabalho monumental do elenco. Johnny Massaro, no papel do físico Márcio, luta para tentar conter o desastre e entrega uma atuação contida e precisa, que traduz a angústia da ciência tentando se impor diante do caos. Mas é no núcleo familiar e nas figuras periféricas que a série atinge seu ápice emocional. Paulo Gorgulho, Bukassa Kabengele e Alan Rocha compõem um mosaico de homens desesperados e falíveis, enquanto Leandra Leal e Emílio de Mello, em participações especiais, acrescentam camadas de delicadeza e tensão. A direção de Coimbra, que já provou sua capacidade de mergulhar em zonas obscuras em “Narcos” e “O Lobo Atrás da Porta”, consegue extrair de cada cena a agonia do invisível — como filmar o medo do que não se vê, mas que está ali, letal, dentro do corpo?
O ponto mais alto da série, no entanto, é seu papel como resgate histórico. O brasileiro tem a triste mania de esquecer o que aconteceu assim que a mídia muda de assunto. O césio-137 virou um verbete de livro didático, uma curiosidade mórbida ou, pior, um símbolo de algo que acontece “no interior”, longe dos olhos do centro. “Emergência Radioativa” devolve Goiânia ao mapa da consciência nacional.
Ela nos lembra que as quatro mortes oficiais — que se estendem às sequelas silenciosas que mataram Devair anos depois — não são números, mas vidas interrompidas pela burocracia e pela ganância. A série tem a força de um soco no estômago exatamente porque escancara o descaso: a cápsula abandonada em uma clínica desativada, a Vigilância Sanitária que ignorou os primeiros sinais, a população deixada à própria sorte enquanto cientistas e médicos arriscavam a própria pele para conter o pó radioativo.
Pela primeira vez, ao que parece, a história é contada levando em conta o sofrimento de suas vítimas. A produção não tem medo de mostrar a contaminação como algo íntimo, que destrói corpos e corrói laços. É angustiante, mas é necessário.
Em tempos de memória curta e revisionismo histórico, ver uma obra de ficção tratar uma ferida real com tanto respeito e apuro técnico é um alívio. O acidente de Goiânia nunca mais poderá ser tratado como um caso antigo e encerrado. “Emergência Radioativa” faz mais do que entreter; ela pede que um país inteiro revisite aquela tragédia para que nunca mais ela volte a acontecer.
