O U2 voltou a ter atitude: a urgência política de “Days of Ash”

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Por Adriana Maraviglia

O U2 que andava afastado do ativismo nos últimos vinte anos reaparece com força em Days of Ash, um EP que devolve à banda a urgência política que a consagrou. Em tempos marcados por conflitos e autoritarismo, as seis faixas chegam como boletins do front: diretas, inflamadas e musicalmente enxutas.

A produção de Jacknife Lee resgata uma crueza que remete a “War” (83), quando o grupo não tinha medo de berrar suas convicções. A abertura, “American Obituary”, é o exemplo mais contundente: um protesto sobre a morte de Renée Good, com baixo e bateria soando como marretadas e uma guitarra de The Edge menos ornamentada e mais cortante. Bono aparece em seu estado mais furioso, a voz embargada pela raiva e pela decepção com a América que sempre abraçou.

Há resistência entre parte do público, que reclama do “mimimi político” e pede um U2 mais inofensivo de arenas. Mas o EP não é pancadaria gratuita: “The Tears of Things” confirma que a banda ainda domina a balada atmosférica, com um refrão que cresce sem pressa e poderia muito bem habitar o lado B de “The Joshua Tree“, agora com um tema de 2026 sobre fé e perda.

O EP encara a complexidade do Oriente Médio sem cair no panfleto. “One Life at a Time” presta tributo ao ativista palestino Awdah Hathaleen, enquanto a adaptação do poema “Wildpeace” de Yehuda Amichai, musicada por Jacknife Lee e narrada por Adeola, oferece um respiro: a paz como coexistência, não aniquilação. É um equilíbrio temático raro e bem executado.

O maior risco aparece em “Yours Eternally”, que traz Ed Sheeran e Taras Topolia num dueto pró-Ucrânia com uma melodia pop que, pasmem, flerta perigosamente com a sonoridade do Coldplay. “Song of the Future”, dedicada à adolescente iraniana Sarina Esmailzadeh, soa um pouco genérica, ficou com cara de sobra de estúdio, e é o único momento em que o EP perde o foco.

No conjunto, “Days of Ash” funciona menos como um recomeço absoluto e mais como um lembrete do que o U2 sempre foi: uma banda que acredita no poder do refrão contra a barbárie. A urgência, o propósito e o zelo voltaram a aparecer — resta saber se isso se manterá até o álbum prometido para o fim do ano. Mas, por enquanto, parece bem interessante que o U2 esteja de volta a um cenário que precisava de mais vozes se erguendo contra seus muitos terrores.

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