Há pelo menos quatro décadas, a Rede Globo construiu sua reputação como a narradora oficial do maior espetáculo da Terra. Geração após geração, aprendeu-se que a transmissão do Carnaval carioca é uma aula de samba: cada ala explicada, cada fantasia contextualizada, cada carro alegórico dissecado como parte de uma narrativa maior. Mas na noite deste domingo, 15 de fevereiro de 2026, algo profundamente estranho aconteceu. Quando a Acadêmicos de Niterói pisou na Sapucaí para contar a história do maior líder popular deste país, a emissora simplesmente desaprendeu seu ofício.
A primeira evidência de que algo estava fora do lugar veio com o relógio. A transmissão começou atrasada – cerca de 30 minutos depois do início do desfile, quando a escola já ocupava metade da Marquês de Sapucaí. Para uma agremiação que estreava no Grupo Especial e merecia cada segundo de visibilidade, a Globo simplesmente chegou atrasada. Não houve pressa em corrigir o erro. Não houve constrangimento.
E quando finalmente a imagem entrou no ar, o que se viu foi uma cobertura fantasmagórica. Câmeras de drone operando a velocidades absurdas, voando alto demais para captar qualquer detalhe, qualquer rosto, qualquer fantasia. Planos gerais que escondiam em vez de mostrar. Som ambiente baixo dificultava para ouvir o samba, enquanto comentaristas falavam o tempo todo como o blogueiro mais tosco, com medo de uma live cair por direitos autorais da música.
Quando mostravam alguma coisa mais de perto, como a câmera na mão, no meio da bateria ela só provocou vergonha alheia pelo que aparentava ser amadorismo.
Mas não se trata de incompetência, como tentarão fazer crer. Trata-se de covardia.
No desfile seguinte, o da Imperatriz Leopoldinense, tudo milagrosamente voltou ao normal. As câmeras reencontraram seu lugar. Os comentaristas conseguiram ficar calados para que o samba fosse ouvido. As personalidades famosas foram devidamente mostradas e até entrevistadas e as alegorias explicadas com o carinho de sempre. A lição de casa estava feita. A homenagem a Ney Matogrosso pode ser vista de cada ângulo em todos os seus aspectos. A incompetência, portanto, foi seletiva.
O que torna essa operação ainda mais escandalosa é o que ela deliberadamente escondeu. A Acadêmicos de Niterói trouxe para a avenida artistas globais – sim, contratados da própria Globo – que ajudaram a encenar a história do presidente Lula.
Paulo Vieira, humorista da casa, vestiu a pele de Lula em sua fase de líder sindical. Ao seu lado, a atriz Juliana Baroni interpretava Marisa Letícia, a companheira de uma vida inteira. Uma cena de afeto e história que a transmissão simplesmente ignorou. Não houve close, não houve menção, não houve nada. Como se não estivessem ali.
O mais curioso? O próprio Paulo Vieira revelou que o convite partiu pessoalmente de Lula e Janja, e que seu pai – personagem central em “Pablo e Luisão”, série do Globoplay – jamais sentiu tanto orgulho do filho quanto ao vê-lo interpretar o presidente. Essa história humana, afetiva, genuinamente brasileira, não mereceu um segundo de tela.
E o que dizer de Fafá de Belém? A cantora, que participou do “esquenta” do desfile interpretando “O que é o Que é” – canção de Gonzaguinha que embalou até a luta pelas Diretas, era aguardada como destaque no último carro. A Globo, naturalmente, também a apagou. Preferiu mostrar qualquer coisa, menos a emoção de uma artista que, como tantos brasileiros, construiu sua trajetória junto com a redemocratização deste país.
Mas a covardia não parou por aí. Houve também a deturpação deliberada. Uma das alas da escola retratava os brasileiros que padecem de “Complexo de Viralatas” e, assim, preferem torcer pelos Estados Unidos. Pois os comentaristas da Globo, numa ginástica interpretativa digna de quem quer fugir do óbvio, descreveram a ala como uma crítica ao governo Trump.
É preciso ter muito medo da própria sombra para distorcer tão descaradamente o sentido de uma fantasia. Ou talvez seja preciso ter um compromisso muito claro com o apagamento daquilo que seria obrigada a mostrar.
Compreende-se, claro, o clima de tensão que antecedeu o desfile. Foram pelo menos dez ações na Justiça tentando impedir a homenagem. Partidos de oposição correram ao TSE, ao TCU, ao Ministério Público. O Tribunal Superior Eleitoral, embora tenha permitido o desfile por 7 votos a 0, fez alertas solenes sobre o “risco concreto” de ilícitos eleitorais. A ministra Carmen Lúcia advertiu que, se algo ocorresse, o tribunal atuaria.
O governo federal, por sua vez, orientou autoridades a evitarem manifestações que caracterizassem propaganda antecipada. Janja, inclusive, decidiu não desfilar para evitar “possíveis perseguições à escola e ao presidente”.
Havia, portanto, um ambiente de linchamento preventivo. A escola, que estreava no Grupo Especial, desfilou sob ameaça. Qualquer deslize seria punido.
Mas a Globo não é uma emissora qualquer. Ela não precisa se acovardar diante de pressões. Seus profissionais são os mais experientes do país. Sabem, como ninguém, narrar um desfile sem transformá-lo em palanque – justamente porque sabem, como ninguém, explicar o carnaval em sua inteireza.
Mas o que se viu na noite de domingo não foi cautela jurídica. Foi decisão editorial. A mesma emissora que foi capaz de editar um debate eleitoral, em 1989, para ajudar a eleger o lamentável Fernando Collor, tratou Lula como sempre tratou: um inimigo a ser calado.
Enquanto a Globo escondia, as redes sociais mostravam. A comissão de frente, intitulada “O amor venceu o medo”, encenou com perfeição teatral os últimos anos da política brasileira: Michel Temer roubando a faixa de Dilma e enquanto as grades prendiam Lula, assistíamos a entrega da faixa para Jair Bolsonaro retratado como o palhaço Bozo, até a retomada triunfal de Lula subindo a rampa em 2023. Era teatro puro, história viva, carnaval em sua essência. A Globo mostrou? De longe, quase sem iluminação e sem detalhamento para garantir que sua audiência não compreendesse.
Dira Paes, atriz da atual novela das 9, interpretou Dona Lindu com a intensidade de quem entende a magnitude daquela mulher nordestina que migrou com oito filhos num pau-de-arara. A Globo mostrou muito rapidamente, sem dar muita atenção.
E o público? Ah, o público também não existiu. A transmissão sequer se preocupou em mostrar a arquibancada, a massa de foliões que antes do início do desfile já gritava a plenos pulmões o refrão “Sem Anistia!” era filmada de muito longe, enquanto cantava animadamente o samba-enredo que a própria Globo censurou até nas chamadas da programação – nada do refrão “Olê, olê, olê, olá / Lula, Lula” nas vinhetas promocionais, apenas um outro trecho do samba, pouco reconhecível.
A mensagem é clara: vocês podem existir, mas não na nossa tela. Vocês podem cantar, mas não no nosso áudio. Vocês podem homenagear o maior líder popular deste país, mas para nós isso é apenas um vazio a ser preenchido com imagens aéreas sem rosto.
A Rede Globo perdeu audiência durante o desfile da Niterói. Em São Paulo, marcou 26% menos que a média do horário, chegando a ser ameaçada pela Record. Talvez seja o começo de uma conta que começa a chegar. Talvez o público, cada vez mais consciente, perceba enfim que está sendo enganado.
O fato é que a mais competente transmissora de carnaval do mundo resolveu esquecer o profissionalismo na noite em que deveria narrar a trajetória de um retirante que se tornou presidente. Chamar isso de coincidência é ofender a inteligência do espectador. Vamos chamar pelo nome correto: covardia editorial, apagamento seletivo, medo de tratar aquele que sempre tratou como inimigo da forma que ele sempre mereceu ser tratado: como um dos brasileiros mais importantes da História, recebendo o carinho do público.
A Acadêmicos de Niterói fez sua parte. Contou a história. Levou para a avenida uma bela homenagem. A Globo, infelizmente, preferiu olhar para o lado. E o pior: quer nos convencer de que não viu nada.
