Há uma cena, perto do final de “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emerald Fennell, em que Heathcliff (Jacob Elordi) se aproxima de Catherine (Margot Robbie), já morta. O momento deveria ser devastador; em vez disso tudo é apenas belo. A fotografia de Linus Sandgren registra as lágrimas e o desespero no rosto do ator, mas também cada nuance de luz entrando pela janela — é de cair o queixo. E é exatamente aí que mora o problema.
O romance gótico de Emily Brontë, publicado em 1847, chocou leitores com sua violência psicológica, atmosfera fantasmagórica e um amor tão destrutivo que só poderia terminar em tragédia. No livro há cenas de horror que atravessam gerações: Heathcliff desenterrando com as próprias mãos o caixão de Cathy, o fantasma que bate nas janelas e o ciclo de violência que atinge filhos e sobrinhos. Mas nada disso sobreviveu à adaptação de Fennell.
A diretora reduz a história ao núcleo romântico entre Cathy e Heathcliff. Toda a segunda geração — Cathy Linton, Hareton, Linton Heathcliff — simplesmente desaparecem; Hindley Earnshaw, o maior responsável pela humilhação de Heathcliff no romance, que acaba motivando seu desejo de vingança também ficou de fora e o roteiro concentra toda a culpa no Sr. Earnshaw, pai adotivo de Heathcliff. O que resta é apenas o envolvimento obsessivo filmado para realçar a beleza dos protagonistas e a estética de cada tomada, em detrimento do resto.
O horror gótico foi trocado por imagens esteticamente perfeitas que ignoram aspectos essenciais da história. A assombração que dá ao romance seu segundo tempo cede lugar a flashbacks e a um melodrama visual que privilegia o efeito sobre a substância.
E que espetáculo visual: Jacqueline Durran criou dezenas de figurinos para Cathy, misturando referências vitorianas com alta‑costura contemporânea; Sandgren transforma rochas e pântanos em cenários banhados por cores saturadas e luzes que provavelmente a gente já viu em um editorial de moda qualquer; a trilha tenta casar o clássico com o pop moderno, com resultados curiosos, mas nem sempre integrados. A opulência é exuberante — às vezes a ponto de doer —, mas não compensa a perda do núcleo sombrio do original.
Outro problema é a idade da protagonista. No romance, Catherine tem 17 anos quando toma as decisões que a condenam; sua imaturidade é parte essencial do drama. Margot Robbie tem 35, e a mesma impetuosidade que em uma adolescente soa trágica, numa mulher madura parece simplesmente ambição e cálculo, dificultando a empatia. Heathcliff, por sua vez, aparece mais como um ícone de bad boy do que como a força devastadora e atormentada que Brontë criou; em vários momentos a intensidade exigida pelo papel não se materializa.
No fim, o filme vira um videoclipe estendido de duas horas e dezesseis minutos: cada cena parece pensada para ser pausada, transformada em print e compartilhada. Há quem admire a ousadia estética; há quem sinta falta da convicção emocional e do horror que fazem do livro uma obra única. Funciona como entretenimento e peça de época repaginada, mas falha em transmitir a alma sombria que sustenta o original.
Isso entristece porque, para muitos jovens, esta será a primeira — e talvez única — versão cinematográfica de O Morro dos Ventos Uivantes que conhecerão. Consumidores acostumados a pílulas de 15 segundos serão servidos com uma versão digerível, pasteurizada e embrulhada para presente de uma história que é tudo menos isso. Não verão Cathy retornando do túmulo, não tremerão com Heathcliff abrindo o caixão, nem entenderão o ciclo de violência que faz do livro uma obra-prima.
Em vez disso, terão Margot Robbie em 45 vestidos diferentes, cenas na chuva com Jacob Elordi e uma trilha sonora “cool” que tocará no Spotify enquanto rolam a tela. Terão um amor bonito, fotogênico e limpo — mas um espetáculo sem a alma. E isso é o que mais dói.
“O Morro dos Ventos Uivantes” estreou ontem, 12 de fevereiro, nos cinemas brasileiros. Assista se puder — mas, por favor, leia o livro primeiro. Emily Brontë merece. E você também.
