“O Morro dos Ventos Uivantes” – Margot Robbie e Jacob Elordi São Lindos. Emily Brontë Merecia Mais

Cinema Críticas

Por Adriana Maraviglia


Há uma cena, perto do final de “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emerald Fennell, em que Heathcliff (Jacob Elordi) se aproxima de Catherine (Margot Robbie), já morta. O momento deveria ser devastador; em vez disso tudo é apenas belo. A fotografia de Linus Sandgren registra as lágrimas e o desespero no rosto do ator, mas também cada nuance de luz entrando pela janela — é de cair o queixo. E é exatamente aí que mora o problema.

O romance gótico de Emily Brontë, publicado em 1847, chocou leitores com sua violência psicológica, atmosfera fantasmagórica e um amor tão destrutivo que só poderia terminar em tragédia. No livro há cenas de horror que atravessam gerações: Heathcliff desenterrando com as próprias mãos o caixão de Cathy, o fantasma que bate nas janelas e o ciclo de violência que atinge filhos e sobrinhos. Mas nada disso sobreviveu à adaptação de Fennell.

A diretora reduz a história ao núcleo romântico entre Cathy e Heathcliff. Toda a segunda geração — Cathy Linton, Hareton, Linton Heathcliff — simplesmente desaparecem; Hindley Earnshaw, o maior responsável pela humilhação de Heathcliff no romance, que acaba motivando seu desejo de vingança também ficou de fora e o roteiro concentra toda a culpa no Sr. Earnshaw, pai adotivo de Heathcliff. O que resta é apenas o envolvimento obsessivo filmado para realçar a beleza dos protagonistas e a estética de cada tomada, em detrimento do resto.

O horror gótico foi trocado por imagens esteticamente perfeitas que ignoram aspectos essenciais da história. A assombração que dá ao romance seu segundo tempo cede lugar a flashbacks e a um melodrama visual que privilegia o efeito sobre a substância.

E que espetáculo visual: Jacqueline Durran criou dezenas de figurinos para Cathy, misturando referências vitorianas com alta‑costura contemporânea; Sandgren transforma rochas e pântanos em cenários banhados por cores saturadas e luzes que provavelmente a gente já viu em um editorial de moda qualquer; a trilha tenta casar o clássico com o pop moderno, com resultados curiosos, mas nem sempre integrados. A opulência é exuberante — às vezes a ponto de doer —, mas não compensa a perda do núcleo sombrio do original.

Outro problema é a idade da protagonista. No romance, Catherine tem 17 anos quando toma as decisões que a condenam; sua imaturidade é parte essencial do drama. Margot Robbie tem 35, e a mesma impetuosidade que em uma adolescente soa trágica, numa mulher madura parece simplesmente ambição e cálculo, dificultando a empatia. Heathcliff, por sua vez, aparece mais como um ícone de bad boy do que como a força devastadora e atormentada que Brontë criou; em vários momentos a intensidade exigida pelo papel não se materializa.

No fim, o filme vira um videoclipe estendido de duas horas e dezesseis minutos: cada cena parece pensada para ser pausada, transformada em print e compartilhada. Há quem admire a ousadia estética; há quem sinta falta da convicção emocional e do horror que fazem do livro uma obra única. Funciona como entretenimento e peça de época repaginada, mas falha em transmitir a alma sombria que sustenta o original.

Isso entristece porque, para muitos jovens, esta será a primeira — e talvez única — versão cinematográfica de O Morro dos Ventos Uivantes que conhecerão. Consumidores acostumados a pílulas de 15 segundos serão servidos com uma versão digerível, pasteurizada e embrulhada para presente de uma história que é tudo menos isso. Não verão Cathy retornando do túmulo, não tremerão com Heathcliff abrindo o caixão, nem entenderão o ciclo de violência que faz do livro uma obra-prima.

Em vez disso, terão Margot Robbie em 45 vestidos diferentes, cenas na chuva com Jacob Elordi e uma trilha sonora “cool” que tocará no Spotify enquanto rolam a tela. Terão um amor bonito, fotogênico e limpo — mas um espetáculo sem a alma. E isso é o que mais dói.

“O Morro dos Ventos Uivantes” estreou ontem, 12 de fevereiro, nos cinemas brasileiros. Assista se puder — mas, por favor, leia o livro primeiro. Emily Brontë merece. E você também.


Assista ao trailer de “O Morro dos Ventos Uivantes”:

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