Há filmes que apenas entretêm. Outros, como o extraordinário documentário “Orwell: 2+2=5” que estreia nesta quinta-feira (12/02) no Brasil, têm a rara coragem de cutucar a ferida aberta da nossa cada vez mais frágil democracia mundial com um bisturi afiado e sem anestesia. Raoul Peck, o mesmo gênio haitiano por trás do devastador “Eu Não Sou Seu Negro” (2016), não se limita a retratar o gênio literário do autor de “1984”, mas provoca o espectador, pintando um retrato cruel de como sua obra permanece atual em um mundo em que as oligarquias trabalham para nos convencer de que preto é branco, que guerra é paz, e que 2+2, sim senhor, pode perfeitamente ser 5.
Em seu documentário, Peck enxerga Orwell não como um escritor de ficção, mas como um viajante do tempo que voltou para alertar o mundo sobre o futuro. Ele não inventou distopias – ele descreveu o que já via germinar ao seu redor e fez o retrato do que viria a ser o nosso presente. Ao costurar a tuberculose que consumia os pulmões do autor na ilha de Jura com a metástase autoritária que hoje corrói as democracias, Peck não fez apenas cinema: entrega o laudo de um paciente em estado grave. E o paciente somos nós.
A certa altura, a tela nos mostra a invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. A cena não é só mais uma ilustração, mas demonstra a consumação lógica de décadas de adestramento midiático e político. O que Peck escancara é quase insuportável de tão óbvio: os mesmos mecanismos que sustentavam o ficcional Partido Único de Oceania — a repetição da mentira até que ela se torne dogma, a destruição da linguagem como ferramenta de compreensão do real — são hoje operados em escala industrial por big techs que lucram bilhões com nossa incapacidade de distinguir fato de ficção.
O documentário não tem medo de dar nomes aos bois. Enquanto narra os diários de Orwell na voz grave e precisa do ator Damian Lewis (Era Uma Vez em Hollywood – 2019), Peck intercala imagens de Edward Snowden denunciando o vale-tudo da vigilância digital. Os “surveillance capitalists” — os capitalistas da vigilância — são os novos “Ministros da Verdade”, só que não usam coturnos mas roupas de grife e discursos sobre “liberdade de expressão” enquanto seus algoritmos ajudam a divulgar golpistas, negacionistas da História e da Ciência, fanáticos religiosos, exploradores e profetas do caos para o centro do debate público.
Peck também coloca na tela os herdeiros da família Marinho e os muitos tentáculos de seu imenso “polvo” midiático que se estica para tocar cada brasileiro e divulgar o que seja de interesse da oligarquia que eles representam.
O diretor não precisa de narrador para explicar o óbvio. Ao incluir os Marinho entre os grandes imperadores da mídia, ele nos lembra que o problema que está denunciando no mundo também tem raízes em nosso terreno.
O poder midiático oligárquico não é um mero espectador do autoritarismo moderno — é seu braço institucional, seu departamento de propaganda. Enquanto a Globo e seus congêneres mundo afora posam de guardiãs da democracia, o documentário prova que elas atuam, na verdade, como zeladoras do status quo, sempre prontas a patrulhar e oferecer limites, enquanto demoniza qualquer alternativa que possa ameaçar seus negócios.
Para quem ainda duvidava, a mensagem é cristalina: o Brasil conta com sua própria filial do Ministério da Verdade e ela se multiplica e influencia tudo que chega aos ouvidos dos brasileiros.
Ao contrário do que o Cinema costuma reafirmar em seus muitos dramas de guerra históricos, em “Orwell: 2+2=5”, Peck afirma que o fascismo não morreu em 1945: o que o documentário demonstra é que ele continuou muito vivo e em nossa época tecnológica está atualizado para uma versão 2.0 — mais pulverizado, mais sorridente e a distância de apenas um click, nas famigeradas redes sociais. Não é mais necessário invadir com um exército o país que nega submissão ao “Grande Irmão”, basta apertar os “parafusos” dos algoritmos que eles “inundarão” os celulares da região com “opiniões controversas”, “senso comum” e “combate à corrupção”.
Peck escancara o papel dos Estados Unidos como incubadora desse novo autoritarismo. As cenas de Donald Trump não estão lá por acaso, elas mostram que a “fábrica de duplipensar” da ficção não mais habita em Moscou ou Pequim, mas vem direto dos EUA. Agora, ela é made in USA e, hipocritamente, alega estar levando a Democracia e o combate às drogas pelo mundo afora. A invasão do Capitólio, repita-se, não foi um acidente. Foi um teste beta do que Orwell chamava de “parar de acreditar que temos o direito de acreditar em nossos próprios olhos” .
O título “2+2=5” não é uma metáfora sobre a tortura psicológica. É a fórmula matemática do totalitarismo contemporâneo: quanto mais absurda a mentira, mais convertido será o súdito.
É aí que o filme atinge seu ponto mais alto e mais desesperador. Ele nos pergunta, sem piedade: até quando você vai continuar fingindo que faz as contas erradas para concordar com quem quer te usar como “massa de manobra”?
Há críticos que reclamam que o documentário é “didático demais” e que prefere chocar a explicar. Mas talvez, diante da hecatombe que se avizinha, o choque seja o único idioma que ajude a despertar para o que estamos vivendo. Talvez, num tempo em que a extrema-direita mundial elege o “fato alternativo” como moeda corrente, a didática pode ser a forma mais radical de resistência.
O que fica, ao final das 1h59 de projeção, não é apenas a constatação de que Orwell estava certo. É a certeza de que seus algozes continuam os mesmos — só mudaram os figurinos e o veículo de comunicação. Cabe a nós, espectadores, cidadãos sobreviventes desse naufrágio civilizatório, decidir se continuaremos somando errado para caber na estatística do opressor, ou se recuperaremos o direito elementar de dizer: NÃO, 2+2 continua sendo 4. E a verdade, por mais perseguida que seja, ainda é a nossa última trincheira.
“Orwell: 2+2=5” estreia nesta quinta-feira, 12 de fevereiro, nos cinemas brasileiros. Leve um amigo. Leve um estranho. Leve especialmente aqueles que ainda acreditam que a mentira repetida mil vezes vira verdade. A tela os espera — e a História, também.
Assista ao trailer de “Orwell: 2+2=5”:
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