Há uma melancolia peculiar em se esconder à luz do dia, em meio ao cinza elegante e à animação descontraída da Berlim contemporânea. É nesse contraste que “Unfamiliar” (originalmente Bone Palace), a minissérie alemã original da Netflix assinada por Paul Coates, encontra sua pulsação única. Atingindo o topo das paradas do streaming, a produção, que estreou nesta semana, faz muito mais do que executar com maestria a premissa de um thriller de perseguição. Ela constrói, tijolo por tijolo, um palácio de memórias frágeis e ossos enterrados — daí a força do título original —, questionando quanto do passado pode habitar um presente que se deseja apenas comum.
Paul Coates, com um olhar que lembra o rigor estético de cineastas como Christian Petzold mesclado à tensão narrativa de um Le Carré doméstico, não nos joga direto na ação frenética. Ele nos convida a morar com esse casal. A câmera observa, com uma paciência quase intrusiva, a coreografia silenciosa de dois ex-espiões em sua cozinha, onde um simples passar de sal pode conter um código. A química entre os protagonistas, vividos com intensidade contida por Laurence Rupp e Susanne Wolff, não é construída sobre declarações, mas sobre o cansaço compartilhado de carregar segredos maiores que o amor que os une. A aposentadoria, aqui, não é paz. É um estado de alerta permanente disfarçado de normalidade.
A grande sacada narrativa, e o que eleva “Unfamiliar” acima de congêneres do gênero, é a personagem da filha de 16 anos, interpretada com brilho pela jovem Maja Bons. Ela não é um elemento a ser protegido ou um ponto frágil a explorar. Ela é a encarnação viva de um futuro que os pais lutaram para dar, mas que não conseguem habitar. Sua rebeldia, sua vida digital transparente e sua desconfiança genuína em relação aos pais são o verdadeiro motor dramático. O perigo externo, quando irrompe, é quase um alívio, pois devolve ao casal a linguagem que dominam: a da sobrevivência. A perseguição dupla — de antigos desafetos e da polícia — é habilmente entrelaçada, borrando as linhas entre quem é caçador e quem é presa.
A fotografia de “Unfamiliar” merece um capítulo à parte. A Berlim que aparece como cenário é cheia de cantos escuros e perigosos, enquanto a trilha sonora traz uma composição eletrônica fria que remete à época da Guerra Fria, quando a cidade se dividia em dois e os dois lados eram cheios de armadilhas.
Se há um ponto que pode dividir a crítica, é a deliberação do ritmo. Coates opta por longos momentos de respiração e tensão psicológica, relegando as sequências de ação a explosões curtas e brutais. É uma escolha arrojada que exige paciência do espectador acostumado a estímulos constantes, mas que paga dividendos altíssimos em credibilidade emocional. O perigo, quando chega, é sentido na pele.
“Unfamiliar” não é, no fim das contas, apenas mais uma série sobre espiões. É um estudo magistral sobre o casamento como a última e mais perigosa missão, sobre a paternidade como outra camada de risco para a espionagem, e sobre a impossibilidade de se apagar a própria história. Paul Coates nos entrega, através de atuações impecáveis de seu elenco principal, um thriller existencialista, envolto em uma narrativa precisa como um mecanismo de relógio. Uma obra que prova que os ossos do passado, por mais bem escondidos que estejam, sempre formam a estrutura invisível — e por vezes trincada — do presente. Imperdível.
Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade
