Em um mundo onde nossos passos são rastreados, nossas palavras são analisadas e nossos desejos são antecipados por algoritmos, não surpreende que a justiça humana também se torne obsoleta. É neste cenário de 2029 que Timur Bekmambetov, o diretor russo-cazaque que nos apresentou a angústia digital de “Buscando” (2018), planta a semente de “Justiça Artificial” (Mercy). Após o tropeço amplamente criticado em “A Guerra dos Mundos” (2025), Bekmambetov retorna ao território que domina: a narrativa engendrada pela e sobre a tecnologia que nos define.
A premissa é um pesadelo moderno, assustadoramente plausível. Chris Raven (Chris Pratt) acorda não em sua cama, mas preso a uma cadeira, diante da fria e impessoal juíza Maddox (Rebecca Ferguson). O crime? O assassinato da própria esposa, Nicole (Annabelle Wallis). O julgador? Um sistema de Inteligência Artificial infalível, que montou um caso irrefutável em poucas horas. O prazo? Noventa minutos. A partir daí, o filme se transforma em um relógio de areia cinematográfico, onde cada grão de areia que cai é um suspiro de angústia do espectador.
Bekmambetov aplica aqui a mesma estética “screenlife” que revolucionou “Buscando”, mas com uma evolução notável. Se antes a trama se desenrolava em telas de computador, aqui a tecnologia é mais onipresente e, portanto, mais invasiva. As provas não são impressas; são projeções holográficas. As testemunhas não estão na sala; depõem através de chamadas de vídeo. A própria sala de interrogatório é um cubo tecnológico, onde as paredes se tornam telas que exibem a vida desmontada de Raven. O diretor não usa o artifício como mero show-off visual; ele é a própria linguagem do filme, a materialização de um mundo onde a privacidade morreu e a verdade é um quebra-cabeça montado por máquinas.
Chris Pratt, afastando-se de seu habitual tom descontraído, entrega uma performance contida e desesperada. Seu Raven é um homem comum pego nas engrenagens de um sistema que não permite apelação à emoção. Rebecca Ferguson, por sua vez, é o perfeito contraponto humano à máquina: sua Maddox é profissional, quase robótica, mas nos olhos dela vislumbramos a dúvida – será ela um instrumento do sistema ou sua última guardiã? A química tensa entre os dois é o motor que sustenta a narrativa, um jogo de gato e rato onde as regras mudam a cada nova evidência.
O roteiro é um labirinto bem arquitetado. As reviravoltas não surgem por mero capricho, mas são consequências lógicas da investigação digital, onde um e-mail esquecido, um histórico de localização ou um pagamento online podem ser a chave para a absolvição ou a condenação. O filme brinca com nossa própria paranoia contemporânea: em uma era de vigilância total, qual espaço nos resta para o erro, para o acidente, para o contexto humano? A tensão é quase palpável, construída não com perseguições espetaculares, mas com revelações de arquivos e informações que tinham ficado perdidas na construção do caso.
“Justiça Artificial” não é um tratado filosófico pesado, mas um thriller inteligente que usa seu dispositivo high-tech para fazer perguntas urgentes. O filme questiona nossa entrega cega à eficiência dos algoritmos, nossa renúncia à complexidade do julgamento humano em nome de uma suposta imparcialidade digital. Bekmambetov, após seu desastre em “Guerra dos Mundos”, lembra-nos aqui de seu talento singular para transformar a estética da nossa vida cotidiana – cheia de telas, senhas e interfaces – em cinema de tensão genuína.
É um entretenimento de primeira linha, que prende do primeiro minuto ao último, mas que deixa um eco perturbador após os créditos finais. Afinal, 2029 não está tão longe. E no tribunal da nossa própria dependência tecnológica, talvez já estejamos, todos nós, em julgamento.
Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade
