A Amazon Prime Video estreou, no último dia 21/01, uma das suas apostas mais vertiginosas e politicamente incisivas do ano: a série britânica O Roubo (Steal). Protagonizada por Sophie Turner, a estrela de “Game of Thrones”, a produção mergulha no mundo financeiro para desmontar, através de um suspense de alta octanagem, os mecanismos ocultos do poder e da desigualdade. O sucesso imediato junto à crítica e ao público surge porque a série vai além da fórmula do thriller: ela utiliza a premissa de um assalto bilionário a fundos de pensão como um bisturi afiado para dissecar a hipocrisia dos sistemas que regem o mundo contemporâneo, questionando quem são, de fato, os verdadeiros ladrões.
Sophie Turner — numa versão bem mais vulnerável e psicologicamente complexa do que sua emblemática Sansa Stark — carrega nos ombros este thriller que transforma o sóbrio escritório da gestora de fundos Lochmill Capital no palco de um pesadelo. O que começa como um sequestro e um crime financeiro, com sua personagem Zara e o colega Luke (Archie Madekwe) coagidos a transferir quantias astronômicas, rapidamente se desdobra numa conspiração de dimensões vertiginosas. A genialidade da premissa, concebida por Sotiris Nikias, não está na mecânica do golpe, mas na sua motivação social. O alvo ser os fundos de trabalhadores comuns eleva a trama do nível do “grande crime” para o da “grande metáfora”.
A narrativa é um jogo duplo de gato e rato. Enquanto Zara tenta sobreviver e desvendar a teia por trás do assalto, a investigação é conduzida pelo Inspector-Chefe Rhys (Jacob Fortune-Lloyd). Rhys, porém, longe de ser o detetive infalível, é um homem combalido por uma recaída no vício do jogo e por dívidas pessoais — um espelho moral quebrado da própria sociedade que ele deve proteger. A fragilidade dos protagonistas é o combustível que faz o suspense queimar de forma lenta e intensa. Os diretores Hettie Macdonald e Sam Miller optam por um ritmo controlado e por uma tensão que nasce menos de tiros e mais dos olhares trocados, dos silêncios pesados e da arquitetura claustrofóbica dos escritórios corporativos.
E é impossível falar desta série sem destacar o seu cerne ideológico. O Roubo é um thriller visceralmente político. Ela escancara a ferida de uma época onde a linha que separa criminosos, corporações e até mesmo o Estado se tornou perigosamente tênue. A série sugere que o maior assalto não é cometido por homens de passamonta, mas por homens de terno, dentro de escritórios envidraçados. Esta não é uma história sobre bandidos e mocinhos, mas sobre culpa coletiva, cumplicidade e resistência. Zara, uma funcionária comum, transforma-se de refém em investigadora, conduzindo o espectador por uma espiral que envolve bilionários, serviços secretos e agendas ocultas de poder. O que a move não é um heroísmo vazio, mas uma necessidade desesperada de justiça em um mundo onde os pilares que deveriam sustentá-la parecem ter sido saqueados há muito tempo.
Sophie Turner entrega aqui um daqueles desempenhos que marcam uma virada na carreira. Ela traz a Zara uma força contida, uma vulnerabilidade que nunca é fraqueza e uma inteligência prática que a torna a heroína improvável perfeita para os nossos tempos. Ao seu lado, o elenco de apoio é impecável, com destaque para a química carregada com Archie Madekwe e para a atuação carnal e perturbada de Jacob Fortune-Lloyd.
O Roubo não oferece respostas fáceis. É uma série que incomoda, provoca e, acima de tudo, mantém o espectador preso à tela não apenas pelo enigma do “quem” ou “como”, mas pelo profundo “porquê”. Ela nos lembra que o suspense mais assustador não é o que ameaça a vida, mas o que ameaça a nossa própria ideia de justiça. Em um cenário de streaming saturado de fórmulas, esta série britânica chega como uma obra necessária: um thriller de altíssimo nível que tem a coragem de usar o entretenimento como um instrumento de reflexão social afiada e urgente. Imperdível.
Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade
