Bossa Sempre Nova: A Praia que Nunca Fecha

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Luísa Sonza não abre Bossa Sempre Nova com um sussurro, mas com uma declaração de atmosfera: o primeiro acorde de “Consolação” (Baden Powell/Vinícius de Moraes) funciona como um portal direto para a orla — o sal, o protetor solar, a brisa do fim de tarde. O novo álbum é, antes de tudo, um exercício de atmosfera e de legado. Trata-se da materialização de um flerte anunciado: a bem-sucedida “Chico”, de Escândalo Íntimo, não foi um acaso, mas um ensaio de mercado e afeto. Com Roberto Menescal na produção e Toquinho como convidado de honra, Sonza amplia esse experimento e percorre 13 standards da bossa e uma faixa inédita, oferecendo ao público um repertório que muitos ouvirão pela primeira vez.

A premissa do disco é direta e eficaz: funcionar como um portal de iniciação para uma geração acostumada ao hiperpop e ao funk. Canções como “Você” e “Triste” (Tom Jobim) chegam agora a milhões de ouvidos que talvez nunca tenham cruzado com esses clássicos. Menescal, com a mão leve de quem ajudou a inventar esse clima, assina arranjos que soam fiéis e, ao mesmo tempo, levemente contemporâneos. O groove de “Samba de Verão” e o piano que conduz “O Barquinho” evocam um Rio eterno; a produção é um banho de mar quente: segura, aconchegante e imediatamente evocativa.

É justamente nesse conforto que mora a principal ressalva. A interpretação de Sonza é competente e carregada de doçura, mas, por vezes, demasiado reverente. Falta à sua leitura uma assinatura mais ousada: em “Águas de Março” ela navega com cuidado, sem a fluidez narrativa de quem habita cada imagem; em “Carta ao Tom 74” (Vinícius/Toquinho), a homenagem soa mais como um tributo estudado do que como uma reinvenção pessoal. A voz, potente e versátil em seus trabalhos autorais, aqui se contém num registro quase uniforme, ausente do risco e da conversa íntima que são a alma da bossa.

Os momentos mais luminosos do disco surgem quando a interação gera faíscas. A parceria com Toquinho em “Tarde em Itapoã” é o coração do álbum: ali, juventude e experiência se entrelaçam, e a voz aveludada do violonista provoca uma entrega mais solta da cantora.

A inédita “Um Pouco de Mim” (Sonza/Menescal), inserida com sabedoria no meio da tradição, é o vislumbre mais promissor — prova de que a linguagem bossanovista pode ser veículo para a expressão contemporânea de Sonza. Esses trechos mostram que o caminho para renovar a bossa passa pelo diálogo, não pela réplica.

Culturalmente, o álbum cumpre sua função com brilho: é um disco-coleção de cartões-postais sonoros, perfeito para playlists de verão e para apresentar um repertório sagrado a novos ouvintes. Sua importância é inquestionável; funciona como a ponte estética entre o cool e o clássico que, por vezes, faltou ao mercado doméstico. Ao colocar seu imenso capital de influência a serviço de Tom, Vinícius, Baden e Menescal, Sonza pratica um gesto de generosidade cultural que merece ser celebrado.

Ainda assim, fica um gosto de “quero mais” — não de mais faixas, mas de mais ousadia. Sonza domina o tom, o clima e o respeito; falta-lhe, por ora, a coragem de riscar a bossa com seu próprio lápis. Se a próxima investida mantiver essa reverência e somar risco interpretativo e autoral, ela não apenas habitará a bossa, mas poderá reescrevê-la para sua geração. Por enquanto, a praia está aberta, linda e convidativa. Só falta um mergulho mais profundo.

Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade

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