Na noite de sexta-feira, 1º de agosto, o Tokio Marine Hall – palco que celebrava seus 30 anos como guardião da cultura paulistana – transformou-se em santuário íntimo para a jornada pelos 80 anos de Ivan Lins. Com a casa lotada, o público testemunhou muito além de um concerto: participou de um ato coletivo de resgate da memória musical brasileira, guiado pelo compositor-pianista que, com voz e histórias, teceu cinco décadas de uma obra indissociável da identidade do país.
Num movimento entre o piano e as lembranças, o espetáculo dirigido por Claudio Lins, filho do artista e herdeiro de seu talento multifacetado, surgiu como uma colcha de retalhos emotiva. As canções agruparam-se em blocos que revelavam as facetas do criador: a do poeta do amor, com “O Amor é o Meu País” e “Iluminados” em arranjos delicados; a do cronista político, onde “Cartomante” e “Aos Nossos Filhos” ecoaram como protesto, e a inédita e pungente “Meninos de Gaza” (parceria com Simone Guimarães), com versos como “Eram meninos / Sementes de sonhos”, ergueu-se como réquiem contemporâneo; e a das raízes interioranas, em que “Guarde nos Olhos” e “Bandeira do Divino” mostraram o Brasil profundo descoberto por Lins através de Vitor Martins.
As participações foram documentos vivos dessa tradição. Claudio Lins, o filho e diretor do espetáculo, emergiu como coautor da narrativa. Em duetos como “Aos Nossos Filhos” e “Cartomante”, suas vozes entrelaçaram-se nos momentos mais emocionantes do show.
Pedro Mariano, herdeiro de Elis Regina (intérprete seminal de Lins), trouxe a circularidade poética: homenageou a mãe com “Lembra de Mim” e um vertiginoso pout-pourri de “Madalena/Samba da Benção” – o filho da cantora imortalizando o compositor que ela ajudou a consagrar.

Entre canções, Ivan desdobrou seu diário em voz alta. Lembrou a ditadura (e como o verso “Apesar dos perigos / Estamos mais vivos”, de “Novo Tempo”, ganhou novos significados), celebrou o “casamento musical” com Vitor Martins e tocou na perda recente de Preta Gil. Esta foi evocada pelos vocais de Tatiana Parra, com “Vitoriosa”, cujos versos sobre “alegria escandalosa” soaram como um epitáfio luminoso.
No bis, “Novo Tempo” reuniu Ivan, Claudio e Pedro Mariano. O hino de resistência de 1980 transformou-se em profecia autocumprida: “Estamos na luta / Pra sobreviver” ecoou enquanto o público, de pé, respondia em uníssono. Prova de que sua obra não é relicário, mas ferramenta viva de reinvenção coletiva.
Mais que celebração cronológica, Ivan Lins 80 foi aula de brasilidade. Evitou a nostalgia ao incluir a inédita “Meninos de Gaza”, integrar gerações sem folclorizar heranças e humanizar o mito: Ivan chorou ao piano, brincou com a idade, errou uma nota – e tudo isso apenas o engrandeceu. Como sintetizou Claudio Lins: “Ivan nunca fez uma música feia”. Naquela noite, o Tokio Marine Hall confirmou: ele também nunca fez um show menor que a vida.
Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade
Setlist Show Ivan Lins no Tokio Marine Hall – SP (01/08/2025):
- Meu piano
- Abre Alas
- Deixa eu dizer
- Daquilo que eu sei
- O Amor é o Meu País
- Iluminados
- Ai, ai, ai, ai, ai
- A noite
- Saindo de mim
- Começar de novo
- Porta Entreaberta
- Emoldurada
- Sou eu
- Atrás Poeira / Qualquer Dia
- Guarde nos Olhos
- Bandeira do Divino
- Olhos Pra Te Ver
- Vieste
- Vitoriosa
- Meninos de Gaza
- Aos nossos filhos (com Claudio Lins)
- Cartomante (com Claudio Lins)
- Lembra de mim (Com Pedro Mariano)
- Madalena / Samba da Benção (Com Pedro Mariano)
- Bilhete
- Lua soberana
- Antes que seja tarde
Bis:
Novo tempo
