{"id":952,"date":"2026-03-21T11:17:26","date_gmt":"2026-03-21T14:17:26","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/?p=952"},"modified":"2026-03-21T11:17:36","modified_gmt":"2026-03-21T14:17:36","slug":"emergencia-radioativa-a-historia-que-a-netflix-resgatou-e-que-o-brasil-nao-devia-ter-esquecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2026\/03\/21\/emergencia-radioativa-a-historia-que-a-netflix-resgatou-e-que-o-brasil-nao-devia-ter-esquecido\/","title":{"rendered":"\u201cEmerg\u00eancia Radioativa\u201d: a hist\u00f3ria que a Netflix resgatou &#8211; e que o Brasil n\u00e3o devia ter esquecido"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Por <a href=\"https:\/\/www.twitter.com\/drikared3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Adriana Maraviglia<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se h\u00e1 uma habilidade que o Brasil desenvolveu at\u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o, foi a de varrer para debaixo do tapete as hist\u00f3rias que causam desconforto \u2014 um defeito coletivo que nos garantiu a fama de possuirmos uma mem\u00f3ria curta. Mas o cinema sempre esteve a\u00ed para resgatar essas hist\u00f3rias e apresent\u00e1-las, de tempos em tempos, \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acidente com o c\u00e9sio-137, em Goi\u00e2nia, em 1987, sempre foi tratado como um epis\u00f3dio de terror resumido a uma pequena localidade no mapa, dentro da capital goiana. Ele rendeu, por alguns meses, muito medo e preconceito contra a cidade, fruto da mistura entre o descaso governamental e a ingenuidade de pessoas simples que cometeram um erro fatal \u2014 assim descrito e divulgado por reportagens que sequer serviram para alertar a popula\u00e7\u00e3o de que aquele tipo de coisa n\u00e3o poderia acontecer novamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nov\u00edssima s\u00e9rie \u201cEmerg\u00eancia Radioativa\u201d, que estreou nesta quarta-feira, 18 de mar\u00e7o, na Netflix, chega para mostrar ao mundo o lado humano da trag\u00e9dia. Criada por Gustavo Lipsztein e dirigida por Fernando Coimbra, a produ\u00e7\u00e3o da Gullane n\u00e3o se interessa pelo tom did\u00e1tico do document\u00e1rio nem tenta fazer aquele sensacionalismo barato t\u00edpico desse tipo de hist\u00f3ria. Pelo contr\u00e1rio. Em cinco epis\u00f3dios, a s\u00e9rie faz um movimento raro no audiovisual brasileiro: ela olha para as v\u00edtimas daquela trag\u00e9dia como protagonistas de uma neglig\u00eancia anunciada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria de Devair Ferreira (Enevildo na s\u00e9rie, interpretado por Bukassa Kabengele), o dono do ferro-velho que comprou o aparelho de radioterapia abandonado, e de sua fam\u00edlia \u2014 especialmente sua esposa, Maria Gabriela (Antonia na s\u00e9rie, interpretada por Ana Costa), e a pequena Leide das Neves (que na s\u00e9rie virou Celeste) \u2014 finalmente ganha o centro do palco. O roteiro tem a coragem de mostrar que, antes de ser um desastre nuclear, aquilo foi um desastre de gest\u00e3o, de informa\u00e7\u00e3o e, acima de tudo, de humanidade. A s\u00e9rie nos obriga a encarar a contamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o pelo \u00e2ngulo macro, mas pela dor silenciosa de quem levou a c\u00e1psula para casa, fascinado pelo brilho incomum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 imposs\u00edvel falar desse feito sem elogiar o trabalho monumental do elenco. Johnny Massaro, no papel do f\u00edsico M\u00e1rcio, luta para tentar conter o desastre e entrega uma atua\u00e7\u00e3o contida e precisa, que traduz a ang\u00fastia da ci\u00eancia tentando se impor diante do caos. Mas \u00e9 no n\u00facleo familiar e nas figuras perif\u00e9ricas que a s\u00e9rie atinge seu \u00e1pice emocional. Paulo Gorgulho, Bukassa Kabengele e Alan Rocha comp\u00f5em um mosaico de homens desesperados e fal\u00edveis, enquanto Leandra Leal e Em\u00edlio de Mello, em participa\u00e7\u00f5es especiais, acrescentam camadas de delicadeza e tens\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o de Coimbra, que j\u00e1 provou sua capacidade de mergulhar em zonas obscuras em \u201cNarcos\u201d e \u201cO Lobo Atr\u00e1s da Porta\u201d, consegue extrair de cada cena a agonia do invis\u00edvel \u2014 como filmar o medo do que n\u00e3o se v\u00ea, mas que est\u00e1 ali, letal, dentro do corpo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto mais alto da s\u00e9rie, no entanto, \u00e9 seu papel como resgate hist\u00f3rico. O brasileiro tem a triste mania de esquecer o que aconteceu assim que a m\u00eddia muda de assunto. O c\u00e9sio-137 virou um verbete de livro did\u00e1tico, uma curiosidade m\u00f3rbida ou, pior, um s\u00edmbolo de algo que acontece \u201cno interior\u201d, longe dos olhos do centro. \u201cEmerg\u00eancia Radioativa\u201d devolve Goi\u00e2nia ao mapa da consci\u00eancia nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela nos lembra que as quatro mortes oficiais \u2014 que se estendem \u00e0s sequelas silenciosas que mataram Devair anos depois \u2014 n\u00e3o s\u00e3o n\u00fameros, mas vidas interrompidas pela burocracia e pela gan\u00e2ncia. A s\u00e9rie tem a for\u00e7a de um soco no est\u00f4mago exatamente porque escancara o descaso: a c\u00e1psula abandonada em uma cl\u00ednica desativada, a Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria que ignorou os primeiros sinais, a popula\u00e7\u00e3o deixada \u00e0 pr\u00f3pria sorte enquanto cientistas e m\u00e9dicos arriscavam a pr\u00f3pria pele para conter o p\u00f3 radioativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pela primeira vez, ao que parece, a hist\u00f3ria \u00e9 contada levando em conta o sofrimento de suas v\u00edtimas. A produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem medo de mostrar a contamina\u00e7\u00e3o como algo \u00edntimo, que destr\u00f3i corpos e corr\u00f3i la\u00e7os. \u00c9 angustiante, mas \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos de mem\u00f3ria curta e revisionismo hist\u00f3rico, ver uma obra de fic\u00e7\u00e3o tratar uma ferida real com tanto respeito e apuro t\u00e9cnico \u00e9 um al\u00edvio. O acidente de Goi\u00e2nia nunca mais poder\u00e1 ser tratado como um caso antigo e encerrado. \u201cEmerg\u00eancia Radioativa\u201d faz mais do que entreter; ela pede que um pa\u00eds inteiro revisite aquela trag\u00e9dia para que nunca mais ela volte a acontecer.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Assista ao trailer de &#8220;Emerg\u00eancia Radioativa&#8221;: <\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Emerg\u00eancia Radioativa | Trailer oficial | Netflix Brasil\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/s0wVghg4vS4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriana Maraviglia Se h\u00e1 uma habilidade que o Brasil desenvolveu at\u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o, foi a de varrer para debaixo do tapete as hist\u00f3rias que causam desconforto \u2014 um defeito coletivo que nos garantiu a fama de possuirmos uma mem\u00f3ria curta. 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