{"id":899,"date":"2026-03-04T19:22:57","date_gmt":"2026-03-04T22:22:57","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/?p=899"},"modified":"2026-03-04T19:23:21","modified_gmt":"2026-03-04T22:23:21","slug":"buddy-guy-e-o-blues-como-ponte-entre-mundos-no-tiny-desk","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2026\/03\/04\/buddy-guy-e-o-blues-como-ponte-entre-mundos-no-tiny-desk\/","title":{"rendered":"Buddy Guy e o blues como ponte entre mundos no Tiny Desk"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Por <a href=\"https:\/\/www.twitter.com\/drikared3\">Adriana Maraviglia<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Tiny Desk recebeu um convidado muito especial no final de fevereiro de 2026, fechando o M\u00eas da Hist\u00f3ria Negra com chave de ouro:  Aos 89 anos, Buddy Guy, o \u00faltimo gigante de p\u00e9 de uma gera\u00e7\u00e3o que incluiu Muddy Waters, B.B. King e John Lee Hooker n\u00e3o veio apenas para provar que &#8220;ainda n\u00e3o terminou com o blues&#8221; \u2014 t\u00edtulo do seu  \u00e1lbum mais recente e vencedor do Grammy de Melhor Disco de Blues deste ano, o nono de sua carreira  \u2014 mas para apresentar ao mundo seu herdeiro musical e cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se existe uma imagem que define essa curta apresenta\u00e7\u00e3o, de apenas quatro m\u00fasicas, \u00e9 a cumplicidade entre o olhar experiente de Guy e a energia transbordante de Miles Caton, seu parceiro de cena no filme <strong><em>Pecadores<\/em> (<em>Sinners<\/em>)<\/strong>, de Ryan Coogler. Enquanto Guy ataca sua Stratocaster decorada por bolinhas, um instrumento que virou uma esp\u00e9cie de assinatura visual do genial bluesman, tocando com a precis\u00e3o de quem inventou tudo aquilo que os guitarristas de rock passariam d\u00e9cadas tentando copiar, Caton surge como um contraponto perfeito: jovem, voz incendi\u00e1ria e um viol\u00e3o que aprendeu a tocar para fazer o filme. O diretor do filme, ali\u00e1s, mostrou faro de \u00e1guia ao escalar esse garoto do Brooklyn, criado numa fam\u00edlia de cantores gospel, para viver a vers\u00e3o jovem de Sammie Moore \u2014 personagem que Guy interpreta seis d\u00e9cadas depois. Ali, naquele cen\u00e1rio apertado que \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o deste programa, a fic\u00e7\u00e3o encontrava a realidade: Caton \u00e9 exatamente o que Sammie deveria ser, um prod\u00edgio cuja m\u00fasica atravessa o tempo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha das can\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderia ser mais certeira. Guy abre com &#8220;Damn Right, I&#8217;ve Got the Blues&#8221;, faixa-t\u00edtulo do disco de 1991 que o recolocou no centro do mapa blues. Aos 89 anos, sua voz oscila entre o sussurro de quem guarda segredos demais e o rosnado de quem ainda tem contas a ajustar com o mundo \u2014 e, quando ele desliza os dedos pelo bra\u00e7o da guitarra, o tempo simplesmente desaba. Segue-se &#8220;Hoochie Coochie Man&#8221;, aquele cl\u00e1ssico de Willie Dixon que Muddy Waters imortalizou e que Guy trata com a rever\u00eancia de quem n\u00e3o apenas conheceu os tit\u00e3s, mas sentou-se \u00e0 mesa com eles. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o sentir o peso da hist\u00f3ria quando ele modula a frase &#8220;the gypsy woman told my mother&#8221; \u2014 quantas vezes ele n\u00e3o deve ter ouvido Muddy cantar esses mesmos versos? Mas \u00e9 quando Caton retorna ao palco \u2014 ap\u00f3s uma pausa para Guy relembrar, com aquele humor \u00e1cido de quem j\u00e1 viu de tudo, que os bluesmen antigos &#8220;xingavam de verdade&#8221;, ao contr\u00e1rio dos rappers que usam os palavr\u00f5es para posar de pol\u00eamicos \u2014 que o concerto ganha outra dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Travelin'&#8221; e &#8220;I Lied to You&#8221; chegam como a alma secreta do filme. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es que funcionam dentro da narrativa de <em>Pecadores<\/em> como manifesta\u00e7\u00f5es de um talento sobrenatural \u2014 no longa, a m\u00fasica de Sammie \u00e9 t\u00e3o poderosa que atravessa dimens\u00f5es e atrai criaturas das sombras. E ali, sem os truques do palco e<br>sob as luzes fluorescentes da sede da NPR, vemos os dois int\u00e9rpretes recriarem essa din\u00e2mica em tempo real. &#8220;I Lied to You&#8221; \u2014 indicada ao Oscar e escrita por Raphael Saadiq e Ludwig G\u00f6ransson \u2014 ganha contornos de jam session. Guy provoca, estica notas, testa os limites do garoto. Caton, longe de se intimidar, responde \u00e0 altura: seu vocal criado nos bancos de igreja ao lado da m\u00e3e e da tia, explode num registro que lembra os grandes soulmen dos anos 60. \u00c9 a passagem do bast\u00e3o acontecendo diante dos nossos olhos, sem discursos, apenas com a m\u00fasica como testemunha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale registrar o trabalho impec\u00e1vel da banda que sustentou esses momentos: Dan Souvigny ao piano, Ric Hall na guitarra base, Orlando Wright no baixo e Pooky Styx na bateria formam uma cozinha s\u00f3lida, daquelas que permitem a um gigante como Guy viajar \u00e0 vontade sem jamais perder o ch\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o do Tiny Desk, capitaneada por Bobby Carter, capta cada olhar c\u00famplice, cada risada contida quando Guy faz piadas de duplo sentido \u2014 perto de chegar aos 90 anos, o bluesman mant\u00e9m o entusiasmo jovial e o olhar brilhante de quem ainda sente prazer em subir ao palco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a apresenta\u00e7\u00e3o termina, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que testemunhamos algo muito maior. Buddy Guy \u00e9 hoje uma das \u00faltimas conex\u00f5es vivas com a era dourada do blues de Chicago, aquele som el\u00e9trico que migrou do Delta do Mississippi para os clubes enfuma\u00e7ados do norte e, de l\u00e1, conquistou o mundo. Mas ao lado de Miles Caton \u2014 20 anos, sangue novo, estrada pela frente \u2014 ele nos lembra que o blues jamais ser\u00e1 um g\u00eanero morto. Enquanto houver jovens dispostos a aprender os segredos da guitarra, enquanto a chama desse g\u00eanero que ajudou a inventar o rock n&#8217;roll estiver acesa e enquanto houver cineastas como Ryan Coogler dispostos a construir pontes entre gera\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da m\u00fasica, o blues continuar\u00e1 sendo o que sempre foi: a voz de um povo transformando dor em beleza. Que venham os pr\u00f3ximos 90 anos, Buddy. <br>E que o jovem Caton esteja disposto a seguir as pegadas desse gigante e carregue ainda mais longe essa chama. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Setlist:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>&#8220;Damn Right, I&#8217;ve Got the Blues&#8221;<\/li>\n\n\n\n<li>&#8220;Hoochie Coochie Man&#8221;<\/li>\n\n\n\n<li>&#8220;Travelin'&#8221; (com Miles Caton)<\/li>\n\n\n\n<li>&#8220;I Lied to You&#8221; (com Miles Caton)<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>M\u00fasicos:<\/strong><br>Buddy Guy (vocal, guitarra), Miles Caton (vocal, guitarra), Dan Souvigny (piano), Ric Hall (guitarra), Orlando Wright (baixo), Pooky Styx (bateria)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para ver:<\/strong> O concerto completo est\u00e1 dispon\u00edvel no canal do NPR Music no YouTube. <strong><em>Pecadores<\/em> (<em>Sinners<\/em>) <\/strong>est\u00e1 dispon\u00edvel na HBO MAX, lembrando que o filme recebeu 16 indica\u00e7\u00f5es ao Oscars, incluindo Melhor Can\u00e7\u00e3o Original para &#8220;I Lied to You&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n\t<div class=\"lynbro-cc-embed\"\n\t\tdata-lynbro-cc-embed=\"youtube\"\n\t\tdata-lynbro-cc-category=\"marketing\"\n\t\tstyle=\"aspect-ratio: 640 \/ 360;\">\n\t\t<template class=\"lynbro-cc-embed__frame\">\t<div class=\"lynbro-cc-embed\"\n\t\tdata-lynbro-cc-embed=\"youtube\"\n\t\tdata-lynbro-cc-category=\"marketing\"\n\t\tstyle=\"aspect-ratio: 640 \/ 360;\">\n\t\t<template class=\"lynbro-cc-embed__frame\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Buddy Guy: Tiny Desk Concert\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/m5XxOLdMSS8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/template>\n\t\t<div class=\"lynbro-cc-embed__inner\">\n\t\t\t<p class=\"lynbro-cc-embed__title\">O conte\u00fado de YouTube est\u00e1 bloqueado<\/p>\n\t\t\t<p class=\"lynbro-cc-embed__text\">Para ver este conte\u00fado de YouTube, voc\u00ea precisa aceitar os cookies relevantes. 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