{"id":692,"date":"2026-02-11T15:05:14","date_gmt":"2026-02-11T18:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/?p=692"},"modified":"2026-02-11T15:05:28","modified_gmt":"2026-02-11T18:05:28","slug":"orwell-225-o-filme-que-prova-que-o-fascismo-nao-voltou-ele-nunca-foi-embora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2026\/02\/11\/orwell-225-o-filme-que-prova-que-o-fascismo-nao-voltou-ele-nunca-foi-embora\/","title":{"rendered":"&#8220;Orwell: 2+2=5&#8221; &#8211; o filme que prova que o fascismo n\u00e3o voltou: ele nunca foi embora"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Por <a href=\"https:\/\/www.twitter.com\/drikared3\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.twitter.com\/drikared3\">Adriana Maraviglia<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 filmes que apenas entret\u00eam. Outros, como o extraordin\u00e1rio document\u00e1rio \u201cOrwell: 2+2=5\u201d que estreia nesta quinta-feira (12\/02) no Brasil, t\u00eam a rara coragem de cutucar a ferida aberta da nossa cada vez mais fr\u00e1gil democracia mundial com um bisturi afiado e sem anestesia. Raoul Peck, o mesmo g\u00eanio haitiano por tr\u00e1s do devastador \u201cEu N\u00e3o Sou Seu Negro\u201d (2016), n\u00e3o se limita a retratar o g\u00eanio liter\u00e1rio do autor de \u201c1984\u201d, mas provoca o espectador, pintando um retrato cruel de como sua obra permanece atual em um mundo em que as oligarquias trabalham para nos convencer de que preto \u00e9 branco, que guerra \u00e9 paz, e que 2+2, sim senhor, pode perfeitamente ser 5.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu document\u00e1rio, Peck enxerga Orwell n\u00e3o como um escritor de fic\u00e7\u00e3o, mas como um viajante do tempo que voltou para alertar o mundo sobre o futuro. Ele n\u00e3o inventou distopias \u2013 ele descreveu o que j\u00e1 via germinar ao seu redor e fez o retrato do que viria a ser o nosso presente. Ao costurar a tuberculose que consumia os pulm\u00f5es do autor na ilha de Jura com a met\u00e1stase autorit\u00e1ria que hoje corr\u00f3i as democracias, Peck n\u00e3o fez apenas cinema: entrega o laudo de um paciente em estado grave. E o paciente somos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A certa altura, a tela nos mostra a invas\u00e3o ao Capit\u00f3lio em 6 de janeiro de 2021. A cena n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais uma ilustra\u00e7\u00e3o, mas demonstra a consuma\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de d\u00e9cadas de adestramento midi\u00e1tico e pol\u00edtico. O que Peck escancara \u00e9 quase insuport\u00e1vel de t\u00e3o \u00f3bvio: os mesmos mecanismos que sustentavam o ficcional Partido \u00danico de Oceania \u2014 a repeti\u00e7\u00e3o da mentira at\u00e9 que ela se torne dogma, a destrui\u00e7\u00e3o da linguagem como ferramenta de compreens\u00e3o do real \u2014 s\u00e3o hoje operados em escala industrial por big techs que lucram bilh\u00f5es com nossa incapacidade de distinguir fato de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O document\u00e1rio n\u00e3o tem medo de dar nomes aos bois. Enquanto narra os di\u00e1rios de Orwell na voz grave e precisa do ator Damian Lewis (Era Uma Vez em Hollywood &#8211; 2019), Peck intercala imagens de Edward Snowden denunciando o vale-tudo da vigil\u00e2ncia digital. Os \u201c<em>surveillance capitalists<\/em>\u201d \u2014 os capitalistas da vigil\u00e2ncia \u2014 s\u00e3o os novos &#8220;Ministros da Verdade&#8221;, s\u00f3 que n\u00e3o usam coturnos mas roupas de grife e discursos sobre \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d enquanto seus algoritmos ajudam a divulgar golpistas, negacionistas da Hist\u00f3ria e da Ci\u00eancia, fan\u00e1ticos religiosos, exploradores e profetas do caos para o centro do debate p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Peck tamb\u00e9m coloca na tela os herdeiros da fam\u00edlia Marinho e os muitos tent\u00e1culos de seu imenso &#8220;polvo&#8221; midi\u00e1tico que se estica para tocar cada brasileiro e divulgar o que seja de interesse da oligarquia que eles representam. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O diretor n\u00e3o precisa de narrador para explicar o \u00f3bvio. Ao incluir os Marinho entre os grandes imperadores da m\u00eddia, ele nos lembra que o problema que  est\u00e1 denunciando no mundo tamb\u00e9m tem ra\u00edzes em nosso terreno. <br><br>O poder midi\u00e1tico olig\u00e1rquico n\u00e3o \u00e9 um mero espectador do autoritarismo moderno \u2014 \u00e9 seu bra\u00e7o institucional, seu departamento de propaganda. Enquanto a Globo e seus cong\u00eaneres mundo afora posam de guardi\u00e3s da democracia, o document\u00e1rio prova que elas atuam, na verdade, como zeladoras do <em>status quo<\/em>, sempre prontas a patrulhar e oferecer limites, enquanto demoniza qualquer alternativa que possa amea\u00e7ar seus neg\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para quem ainda duvidava, a mensagem \u00e9 cristalina:  o Brasil conta com sua pr\u00f3pria filial do Minist\u00e9rio da Verdade e ela se multiplica e influencia tudo que chega aos ouvidos dos brasileiros. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio do que o Cinema costuma reafirmar em seus muitos dramas de guerra hist\u00f3ricos, em \u201cOrwell: 2+2=5\u201d,  Peck afirma que o fascismo n\u00e3o morreu em 1945:  o que o document\u00e1rio demonstra \u00e9 que ele continuou muito vivo e em nossa \u00e9poca tecnol\u00f3gica est\u00e1 atualizado para uma vers\u00e3o 2.0 \u2014 mais pulverizado, mais sorridente e a dist\u00e2ncia de apenas um click, nas famigeradas redes sociais. N\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio invadir  com um ex\u00e9rcito o pa\u00eds que nega submiss\u00e3o ao &#8220;Grande Irm\u00e3o&#8221;, basta apertar os &#8220;parafusos&#8221; dos algoritmos que eles &#8220;inundar\u00e3o&#8221; os celulares da regi\u00e3o com  \u201copini\u00f5es controversas\u201d,  \u201csenso comum\u201d e \u201ccombate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Peck escancara o papel dos Estados Unidos como incubadora desse novo autoritarismo. As cenas de Donald Trump n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 por acaso, elas mostram que a &#8220;f\u00e1brica de duplipensar&#8221; da fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais habita em Moscou ou Pequim, mas vem direto dos EUA. Agora, ela \u00e9 <em>made in USA<\/em> e, hipocritamente, alega estar levando a Democracia e o combate \u00e0s drogas pelo mundo afora. A invas\u00e3o do Capit\u00f3lio, repita-se, n\u00e3o foi um acidente. Foi um  teste beta do que Orwell chamava de \u201cparar de acreditar que temos o direito de acreditar em nossos pr\u00f3prios olhos\u201d .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo \u201c2+2=5\u201d n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora sobre a tortura psicol\u00f3gica. \u00c9 a f\u00f3rmula matem\u00e1tica do totalitarismo contempor\u00e2neo: quanto mais absurda a mentira, mais convertido ser\u00e1 o s\u00fadito. <br>\u00c9 a\u00ed que o filme atinge seu ponto mais alto e mais desesperador. Ele nos pergunta, sem piedade: at\u00e9 quando voc\u00ea vai continuar fingindo que faz as contas erradas para concordar com quem quer te usar como &#8220;massa de manobra&#8221;? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 cr\u00edticos que reclamam que o document\u00e1rio \u00e9 \u201cdid\u00e1tico demais&#8221; e  que prefere chocar a explicar.  Mas talvez, diante da hecatombe que se avizinha, o choque seja o \u00fanico idioma que ajude a despertar para o que estamos vivendo. Talvez, num tempo em que a extrema-direita mundial elege o \u201cfato alternativo\u201d como moeda corrente, a did\u00e1tica pode ser a forma mais radical de resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que fica, ao final das 1h59 de proje\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas a constata\u00e7\u00e3o de que Orwell estava certo. \u00c9 a certeza de que seus algozes continuam os mesmos \u2014 s\u00f3 mudaram os figurinos e o ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o. Cabe a n\u00f3s, espectadores, cidad\u00e3os sobreviventes desse naufr\u00e1gio civilizat\u00f3rio, decidir se continuaremos somando errado para caber na estat\u00edstica do opressor, ou se recuperaremos o direito elementar de dizer: <em><strong>N\u00c3O, 2+2 continua sendo 4<\/strong><\/em>. E a verdade, por mais perseguida que seja, ainda \u00e9 a nossa \u00faltima trincheira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cOrwell: 2+2=5\u201d estreia nesta quinta-feira, 12 de fevereiro, nos cinemas brasileiros. Leve um amigo. Leve um estranho. Leve especialmente aqueles que ainda acreditam que a mentira repetida mil vezes vira verdade. A tela os espera \u2014 e a Hist\u00f3ria, tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Assista ao trailer de &#8220;Orwell: 2+2=5&#8221;: <\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Orwell 2+2= 5 Trailer Legendado\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fJg94h1T64w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Leia Mais: <\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2025\/08\/13\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-um-espelho-quebrado-do-brasil-a-beira-do-abismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cNo C\u00e9u da P\u00e1tria Nesse Instante\u201d: Um Espelho Quebrado do Brasil \u00e0 Beira do Abismo<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2025\/07\/15\/apocalipse-nos-tropicos-o-golpe-como-ato-de-fe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Apocalipse nos Tr\u00f3picos \u2013 O Golpe como Ato de F\u00e9<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2019\/06\/19\/o-brasil-morro-abaixo-de-democracia-em-vertigem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Brasil morro abaixo de \u201cDemocracia em Vertigem\u201d<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriana Maraviglia H\u00e1 filmes que apenas entret\u00eam. 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