{"id":199,"date":"2025-12-10T11:40:00","date_gmt":"2025-12-10T14:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/?p=199"},"modified":"2026-01-18T11:49:56","modified_gmt":"2026-01-18T14:49:56","slug":"jay-kelly-e-o-vazio-da-gaiola-de-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2025\/12\/10\/jay-kelly-e-o-vazio-da-gaiola-de-ouro\/","title":{"rendered":"Jay Kelly e o vazio da gaiola de ouro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo nas primeiras imagens, Noah Baumbach nos convida a atravessar a porta dos bastidores: um plano\u2011sequ\u00eancia generoso que nos empurra para dentro de um est\u00fadio onde mais um grande espet\u00e1culo \u00e9 constru\u00eddo ao redor de Jay Kelly (George Clooney). A cena funciona como um cart\u00e3o de visitas \u2014 n\u00e3o apenas do filme dentro do filme, mas do pr\u00f3prio tema que Baumbach quer dissecar: a fabrica\u00e7\u00e3o do mito e o vazio que ele pode esconder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mestre das crises \u00edntimas das elites criativas, o diretor troca o apartamento liter\u00e1rio nova-iorquino por Los Angeles \u2014 sol forte e n\u00e9voa \u2014 e volta seu bisturi para o epicentro do chamado star system. O que poderia ser mais um retrato previs\u00edvel do astro em decl\u00ednio transforma\u2011se, nas m\u00e3os do cineasta, em uma s\u00e1tira melanc\u00f3lica: o glamour vira m\u00e1scara e, por baixo dela, h\u00e1 arrependimento, autenticidade em falta e uma busca por sentido que escapa como areia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O roteiro evita o melodrama f\u00e1cil. Em vez de acompanhar a queda espetacular de um her\u00f3i, Baumbach prefere mostrar o aprisionamento no topo: Jay Kelly n\u00e3o despenca, ele se encontra enclausurado numa gaiola dourada, cercado por funcion\u00e1rios cuja lealdade parece medir-se apenas pelo sucesso do patr\u00e3o. A desconex\u00e3o \u00e9 silenciosa, quase burocr\u00e1tica \u2014 e \u00e9 a\u00ed que mora o desconforto mais eficaz do filme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O humor, \u00e1cido e seco, nasce do absurdo cotidiano de Hollywood: negocia\u00e7\u00f5es, egos, protocolos que soam rid\u00edculos quando vistos de perto. Esse riso cortante funciona como contraponto \u00e0 ang\u00fastia do protagonista, sem nunca transformar a dor em caricatura. \u00c9 um humor que observa, aponta e deixa o espectador desconfortavelmente c\u00famplice.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme ganha vida sobretudo pelo elenco. George Clooney empresta ao personagem toda a sua iconografia de astro seguro para, com precis\u00e3o cir\u00fargica, desconstru\u00ed\u2011la. Clooney alterna a comicidade do ego em crise com uma vulnerabilidade quase pat\u00e9tica \u2014 a sensa\u00e7\u00e3o de impostor que persiste mesmo quando tudo ao redor grita sucesso. \u00c9 uma atua\u00e7\u00e3o que se alimenta do que o ator j\u00e1 representa e, ao mesmo tempo, o subverte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao lado dele, Adam Sandler surpreende: contido, econ\u00f4mico, \u00e9 o pragmatismo em carne e osso \u2014 o amigo que tamb\u00e9m \u00e9 negociador. Sandler encontra um tom raro, onde o timing c\u00f4mico convive com uma ternura discreta. Laura Dern, em poucas cenas, ilumina o filme; sua agente de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u00e9 espelho e lembran\u00e7a, algu\u00e9m que traz m\u00e1goa e lucidez, e que aponta para um mundo al\u00e9m da bolha hollywoodiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fotografia, mais saturada e limpa do que o Baumbach a que estamos acostumados, replica a est\u00e9tica dos filmes estrelados pelo personagem, ampliando ainda mais a sensa\u00e7\u00e3o de vazio. A trilha, muitas vezes ir\u00f4nica, sublinha momentos de absurdo e de introspec\u00e7\u00e3o com economia \u2014 nunca empurra, apenas acentua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jay Kelly n\u00e3o reinventa o subg\u00eanero do astro em crise, mas o trata com intelig\u00eancia e sensibilidade psicol\u00f3gica. O filme \u00e9 menos um tratado sobre a ind\u00fastria e mais uma medita\u00e7\u00e3o sobre o instante em que o \u201ce agora?\u201d se instala na vida de algu\u00e9m que, aparentemente, tem tudo. Conduzido por Clooney e por um elenco que n\u00e3o se limita a ornamentar, o longa \u00e9 um mergulho agridoce nos bastidores de uma exist\u00eancia perform\u00e1tica, uma obra para quem aprecia di\u00e1logos afiados, personagens complexos e uma s\u00e1tira humana que prefere a precis\u00e3o \u00e0 caricatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Adriana Maraviglia<br><a href=\"https:\/\/www.twitter.com\/rev_eletrici\">@revistaeletricidade<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-left\">Assista ao trailer de &#8220;Jay Kelly&#8221;: <\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Jay Kelly | Teaser oficial | Netflix\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Jm-6RL14qEA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo nas primeiras imagens, Noah Baumbach nos convida a atravessar a porta dos bastidores: um plano\u2011sequ\u00eancia generoso que nos empurra para dentro de um est\u00fadio onde mais um grande espet\u00e1culo \u00e9 constru\u00eddo ao redor de Jay Kelly (George Clooney). 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