{"id":193,"date":"2026-01-17T11:27:19","date_gmt":"2026-01-17T14:27:19","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/?p=193"},"modified":"2026-01-17T11:27:32","modified_gmt":"2026-01-17T14:27:32","slug":"bossa-sempre-nova-a-praia-que-nunca-fecha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2026\/01\/17\/bossa-sempre-nova-a-praia-que-nunca-fecha\/","title":{"rendered":"Bossa Sempre Nova: A Praia que Nunca Fecha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lu\u00edsa Sonza n\u00e3o abre <em><strong>Bossa Sempre Nova<\/strong><\/em> com um sussurro, mas com uma declara\u00e7\u00e3o de atmosfera: o primeiro acorde de \u201cConsola\u00e7\u00e3o\u201d (Baden Powell\/Vin\u00edcius de Moraes) funciona como um portal direto para a orla \u2014 o sal, o protetor solar, a brisa do fim de tarde. O novo \u00e1lbum \u00e9, antes de tudo, um exerc\u00edcio de atmosfera e de legado. Trata-se da materializa\u00e7\u00e3o de um flerte anunciado: a bem-sucedida \u201cChico\u201d, de <em>Esc\u00e2ndalo \u00cdntimo<\/em>, n\u00e3o foi um acaso, mas um ensaio de mercado e afeto. Com Roberto Menescal na produ\u00e7\u00e3o e Toquinho como convidado de honra, Sonza amplia esse experimento e percorre 13 standards da bossa e uma faixa in\u00e9dita, oferecendo ao p\u00fablico um repert\u00f3rio que muitos ouvir\u00e3o pela primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A premissa do disco \u00e9 direta e eficaz: funcionar como um portal de inicia\u00e7\u00e3o para uma gera\u00e7\u00e3o acostumada ao hiperpop e ao funk. Can\u00e7\u00f5es como \u201cVoc\u00ea\u201d e \u201cTriste\u201d (Tom Jobim) chegam agora a milh\u00f5es de ouvidos que talvez nunca tenham cruzado com esses cl\u00e1ssicos. Menescal, com a m\u00e3o leve de quem ajudou a inventar esse clima, assina arranjos que soam fi\u00e9is e, ao mesmo tempo, levemente contempor\u00e2neos. O groove de \u201cSamba de Ver\u00e3o\u201d e o piano que conduz \u201cO Barquinho\u201d evocam um Rio eterno; a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 um banho de mar quente: segura, aconchegante e imediatamente evocativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente nesse conforto que mora a principal ressalva. A interpreta\u00e7\u00e3o de Sonza \u00e9 competente e carregada de do\u00e7ura, mas, por vezes, demasiado reverente. Falta \u00e0 sua leitura uma assinatura mais ousada: em \u201c\u00c1guas de Mar\u00e7o\u201d ela navega com cuidado, sem a fluidez narrativa de quem habita cada imagem; em \u201cCarta ao Tom 74\u201d (Vin\u00edcius\/Toquinho), a homenagem soa mais como um tributo estudado do que como uma reinven\u00e7\u00e3o pessoal. A voz, potente e vers\u00e1til em seus trabalhos autorais, aqui se cont\u00e9m num registro quase uniforme, ausente do risco e da conversa \u00edntima que s\u00e3o a alma da bossa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os momentos mais luminosos do disco surgem quando a intera\u00e7\u00e3o gera fa\u00edscas. A parceria com Toquinho em \u201cTarde em Itapo\u00e3\u201d \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum: ali, juventude e experi\u00eancia se entrela\u00e7am, e a voz aveludada do violonista provoca uma entrega mais solta da cantora. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A in\u00e9dita \u201cUm Pouco de Mim\u201d (Sonza\/Menescal), inserida com sabedoria no meio da tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 o vislumbre mais promissor \u2014 prova de que a linguagem bossanovista pode ser ve\u00edculo para a express\u00e3o contempor\u00e2nea de Sonza. Esses trechos mostram que o caminho para renovar a bossa passa pelo di\u00e1logo, n\u00e3o pela r\u00e9plica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Culturalmente, o \u00e1lbum cumpre sua fun\u00e7\u00e3o com brilho: \u00e9 um disco-cole\u00e7\u00e3o de cart\u00f5es-postais sonoros, perfeito para playlists de ver\u00e3o e para apresentar um repert\u00f3rio sagrado a novos ouvintes. Sua import\u00e2ncia \u00e9 inquestion\u00e1vel; funciona como a ponte est\u00e9tica entre o cool e o cl\u00e1ssico que, por vezes, faltou ao mercado dom\u00e9stico. Ao colocar seu imenso capital de influ\u00eancia a servi\u00e7o de Tom, Vin\u00edcius, Baden e Menescal, Sonza pratica um gesto de generosidade cultural que merece ser celebrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, fica um gosto de \u201cquero mais\u201d \u2014 n\u00e3o de mais faixas, mas de mais ousadia. Sonza domina o tom, o clima e o respeito; falta-lhe, por ora, a coragem de riscar a bossa com seu pr\u00f3prio l\u00e1pis. Se a pr\u00f3xima investida mantiver essa rever\u00eancia e somar risco interpretativo e autoral, ela n\u00e3o apenas habitar\u00e1 a bossa, mas poder\u00e1 reescrev\u00ea-la para sua gera\u00e7\u00e3o. Por enquanto, a praia est\u00e1 aberta, linda e convidativa. S\u00f3 falta um mergulho mais profundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Adriana Maraviglia<br><a href=\"https:\/\/www.twitter.com\/rev_eletrici\">@revistaeletricidade<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ou\u00e7a &#8220;Bossa Sempre Nova&#8221; no Spotify: <\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: Bossa Sempre Nova\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"352\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/album\/5GD7XtF06kvgZZSkdUM1xU?si=9ccPujB6QMeKk-HgWvHRcw&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00edsa Sonza n\u00e3o abre Bossa Sempre Nova com um sussurro, mas com uma declara\u00e7\u00e3o de atmosfera: o primeiro acorde de \u201cConsola\u00e7\u00e3o\u201d (Baden Powell\/Vin\u00edcius de Moraes) funciona como um portal direto para a orla \u2014 o sal, o protetor solar, a brisa do fim de tarde. 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