{"id":1315,"date":"2026-11-08T12:41:57","date_gmt":"2026-11-08T15:41:57","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/?p=1315"},"modified":"2026-11-08T12:42:01","modified_gmt":"2026-11-08T15:42:01","slug":"uma-jane-austen-de-terra-e-pele-a-nova-razao-e-sensibilidade-acerta-no-laco-entre-irmas-mas-tropeca-no-charme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2026\/11\/08\/uma-jane-austen-de-terra-e-pele-a-nova-razao-e-sensibilidade-acerta-no-laco-entre-irmas-mas-tropeca-no-charme\/","title":{"rendered":"Uma Jane Austen de terra e pele: a nova &#8220;Raz\u00e3o e Sensibilidade&#8221; acerta no la\u00e7o entre irm\u00e3s, mas trope\u00e7a no charme"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Adriana Maraviglia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 adapta\u00e7\u00f5es de Jane Austen que nascem com o peso de uma coroa. A vers\u00e3o de Ang Lee para <em>Raz\u00e3o e Sensibilidade<\/em>, de 1995, \u00e9 uma delas: Emma Thompson e Kate Winslet transformaram as irm\u00e3s Dashwood em figuras quase mitol\u00f3gicas do cinema de \u00e9poca, e o roteiro de Thompson \u2014 premiado com o Oscar \u2014 encontrou um equil\u00edbrio raro entre a ironia austeniana e a emo\u00e7\u00e3o contida. \u00c9 contra esse fantasma que qualquer nova vers\u00e3o precisa lutar. E Georgia Oakley, diretora do excelente <em>Blue Jean<\/em> (2022), sabe disso. Sua nova <em>Raz\u00e3o e Sensibilidade<\/em>, que estreou nos cinemas brasileiros em 29 de outubro, n\u00e3o tenta destronar o cl\u00e1ssico. Tenta outra coisa: devolver \u00e0 hist\u00f3ria o barro, o suor e a respira\u00e7\u00e3o de jovens mulheres que precisam calcular o pr\u00f3prio futuro afetivo porque o dinheiro n\u00e3o lhes pertence.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado \u00e9 um filme que respira por caminhos pr\u00f3prios, mas que tamb\u00e9m trope\u00e7a onde a vers\u00e3o anterior era imbat\u00edvel: no magnetismo dos pretendentes e na constru\u00e7\u00e3o do desejo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cora\u00e7\u00e3o desta nova adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 nos romances. Est\u00e1 nas irm\u00e3s. Oakley declarou em entrevista que sempre viu o v\u00ednculo entre Elinor e Marianne como o verdadeiro amor da hist\u00f3ria, mais fundamental do que qualquer cortejo. E isso transparece na tela. Daisy Edgar-Jones comp\u00f5e uma Elinor contida sem ser apagada; seus olhos falam o que a boca cala, e h\u00e1 uma dignidade tranquila em sua performance que lembra a melhor tradi\u00e7\u00e3o do cinema brit\u00e2nico. Esm\u00e9 Creed-Miles, por sua vez, enfrenta o desafio mais ingrato: suceder Kate Winslet em um papel que exige intensidade sem resvalar no histri\u00f4nico. Ela consegue momentos de genu\u00edna fragilidade juvenil, ainda que, em algumas cenas, a dire\u00e7\u00e3o pare\u00e7a confundir emo\u00e7\u00e3o com volume.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A grande vit\u00f3ria de Oakley, por\u00e9m, \u00e9 visual e conceitual. A diretora e a figurinista Grace Snell optaram por um realismo r\u00fastico que se afasta do esplendor de sal\u00e3o associado a Austen. As roupas s\u00e3o panos folgados, os cabelos est\u00e3o soltos, os corpos se emaranham em grama e terra. A fotografia de Arnaud Potier, filmada em parte em 35mm, cria uma Inglaterra \u00famida, fria e palp\u00e1vel \u2014 mais pr\u00f3xima do romantismo selvagem de <em>O Morro dos Ventos Uivantes<\/em> do que da eleg\u00e2ncia urbana que costumamos projetar em Austen. \u00c9 uma escolha corajosa e, em grande medida, bem-sucedida: este \u00e9 um filme sobre mulheres que perdem o teto e precisam reconstruir um lar, e a textura \u00e1spera do mundo ao redor amplifica essa fragilidade material.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, infelizmente, preciso concordar com a cr\u00edtica que j\u00e1 circula: o Willoughby de Frank Dillane \u00e9 um problema. O personagem precisa ser encantador o suficiente para que a paix\u00e3o de Marianne pare\u00e7a inevit\u00e1vel e, depois, devastadora. Dillane constr\u00f3i um Willoughby esquivo, quase entediado, que nunca convence como o homem capaz de virar a cabe\u00e7a de uma jovem rom\u00e2ntica. A qu\u00edmica entre os dois simplesmente n\u00e3o acontece, e o romance de Marianne \u2014 que deveria ser o contraponto passional ao racionalismo de Elinor \u2014 perde for\u00e7a a cada cena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m um desequil\u00edbrio no tratamento de Londres. Se o campo ganha vida e textura, os bailes e sal\u00f5es londrinos soam gen\u00e9ricos, sem o glamour opressivo que deveria contrastar com a simplicidade de Devonshire. A cr\u00edtica que voc\u00ea, leitora, j\u00e1 havia feito antes mesmo de eu assistir ao filme se confirma: Oakley valoriza o rural, mas n\u00e3o encontra uma linguagem visual equivalente para a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta <em>Raz\u00e3o e Sensibilidade<\/em> n\u00e3o substitui a vers\u00e3o de 1995, e provavelmente n\u00e3o se tornar\u00e1 o cl\u00e1ssico que aquela se tornou. Mas seria injusto medi-la apenas pela r\u00e9gua da nostalgia. Georgia Oakley fez um filme que tenta \u2014 e em v\u00e1rios momentos consegue \u2014 devolver a Austen algo que o cinema de \u00e9poca muitas vezes perde: a sensa\u00e7\u00e3o de que aquelas mulheres estavam vivendo, n\u00e3o posando. Daisy Edgar-Jones e George MacKay sustentam o eixo Elinor-Edward com uma delicadeza que justifica a sess\u00e3o. E a decis\u00e3o de colocar as irm\u00e3s, e n\u00e3o os casamentos, no centro da narrativa \u00e9 um acerto que merece ser reconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea ama o livro e a vers\u00e3o de Ang Lee, v\u00e1 sem esperar uma substituta. V\u00e1 esperando uma releitura que enxerga a Austen de outro \u00e2ngulo: menos sal\u00e3o, mais terra; menos glamour, mais la\u00e7o. N\u00e3o \u00e9 pouco.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Assista ao trailer de &#8220;Raz\u00e3o e Sensibilidade&#8221;: <\/h3>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriana Maraviglia H\u00e1 adapta\u00e7\u00f5es de Jane Austen que nascem com o peso de uma coroa. 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