{"id":1187,"date":"2026-08-20T18:44:59","date_gmt":"2026-08-20T21:44:59","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/?p=1187"},"modified":"2026-08-20T18:45:02","modified_gmt":"2026-08-20T21:45:02","slug":"anistia-79-o-passado-que-insiste-em-nao-passar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/2026\/08\/20\/anistia-79-o-passado-que-insiste-em-nao-passar\/","title":{"rendered":"&#8220;Anistia 79&#8221;: o passado que insiste em n\u00e3o passar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por <a href=\"https:\/\/www.twitter.com\/drikared3\">Adriana Maraviglia<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um momento especialmente delicado para a democracia do Brasil e para o povo brasileiro, no qual  amea\u00e7as externas trazem de volta todo o horror autorit\u00e1rio que j\u00e1 vivemos antes,  chega aos cinemas\u00a0 \u201cAnistia 79\u201d, o novo e corajoso document\u00e1rio de Anita Leandro, com estreia hoje em diversas cidades brasileiras.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra n\u00e3o se contenta em ser um \u00e1lbum de mem\u00f3rias. \u00c9 um confronto direto com o que o pa\u00eds escolheu esquecer: que a transi\u00e7\u00e3o para a democracia foi feita sobre os escombros de um regime que matou, torturou e roubou \u2014 e que nunca pagou por isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes \u2014 levando tanto o pr\u00eamio da cr\u00edtica quanto o do J\u00fari Popular \u2014, o filme parte de uma descoberta quase cinematogr\u00e1fica por si s\u00f3. Em 2015, durante uma pesquisa em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, em Paris, a diretora encontrou um material precioso e in\u00e9dito: quase duas horas de imagens da Confer\u00eancia Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979. Filmadas pelo exilado Hamilton Lopes dos Santos com uma c\u00e2mera alugada, essas pel\u00edculas permaneceram esquecidas em um por\u00e3o por quase meio s\u00e9culo .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u201cAnistia 79\u201d vai al\u00e9m de um simples compilado de arquivo. Anita constr\u00f3i um dispositivo sens\u00edvel e inteligente: ela re\u00fane 11 pessoas que participaram daquele evento hist\u00f3rico \u2014 entre eles, Luiz Eduardo Greenhalgh, Helo\u00edsa Greco e a pr\u00f3pria Denise Crispim \u2014 e as coloca diante das imagens de seu pr\u00f3prio passado. O resultado \u00e9 um exerc\u00edcio de arqueologia emocional de tirar o f\u00f4lego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto de partida e o fio condutor da narrativa \u00e9 Denise Crispim. A abertura do filme \u00e9 devastadora: imagens do Tribunal Bertrand Russell II, em 1974, onde o depoimento de Denise sobre a tortura e assassinato de seu companheiro, Eduardo Collen Leite (o Bacuri), \u00e9 lido por um jurista, pois ela n\u00e3o consegue falar. Seu corpo, ali, \u00e9 um testemunho silencioso do terror.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D\u00e9cadas depois, reencontramos Denise n\u00e3o como uma v\u00edtima muda, mas como uma mulher que, ao rever os arquivos, apresenta seus familiares e amigos \u00e0 filha, tecendo coment\u00e1rios sobre os militantes que aparecem na tela. Como observou a cr\u00edtica especializada, o filme oferece a ela um gesto de repara\u00e7\u00e3o que o Estado jamais concedeu: a possibilidade de nomear e de se reconectar com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Aos poucos, o trauma cede espa\u00e7o \u00e0 mem\u00f3ria, ainda que dolorida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diretora, que tamb\u00e9m assina a montagem ao lado de Isabel de Castro, constr\u00f3i uma edi\u00e7\u00e3o que, como ela mesma define, \u00e9 &#8220;lacunar, cheia de buracos&#8221;. N\u00e3o se trata de uma aula de hist\u00f3ria did\u00e1tica. A for\u00e7a de \u201cAnistia 79\u201d est\u00e1 justamente em criar um espa\u00e7o para que o espectador ocupe esses intervalos, para que ele pr\u00f3prio fa\u00e7a sua montagem entre o passado e o presente. As imagens n\u00e3o servem apenas para ilustrar; elas s\u00e3o convocadas para um confronto direto com a nossa realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aqui mora o grande acerto pol\u00edtico do filme. Ao mostrar a confer\u00eancia e as esperan\u00e7as de 1979, o longa escancara o fracasso da transi\u00e7\u00e3o brasileira. A Lei da Anistia, que completa 47 anos na pr\u00f3xima semana, n\u00e3o apenas concedeu o perd\u00e3o aos agentes da repress\u00e3o, como deixou intacto o aparato repressivo. Como observa a pr\u00f3pria diretora, a forma\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias militares permanece a mesma de d\u00e9cadas atr\u00e1s, com manuais que ainda tratam o cidad\u00e3o como &#8220;inimigo interno&#8221; .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse ponto que \u201cAnistia 79\u201d se torna um filme sobre o agora. Ao ouvir os discursos de lideran\u00e7as como Manoel da Concei\u00e7\u00e3o \u2014 que j\u00e1 em 1979 alertava para o perigo de uma \u201canistia concedida\u201d que mantinha as estruturas de poder intactas&nbsp; \u2014, somos for\u00e7ados a perceber que o &#8220;entulho autorit\u00e1rio&#8221; (como define Anita) segue erguido entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 quem diga que os 105 minutos de proje\u00e7\u00e3o poderiam ser mais enxutos, e, de fato, em alguns momentos a costura entre as falas e os arquivos se alonga. No entanto, essa sensa\u00e7\u00e3o de imers\u00e3o quase ritual\u00edstica \u00e9 parte da proposta. O sil\u00eancio das plateias, descrito pela diretora como uma &#8220;liturgia&#8221;, prova que o filme n\u00e3o busca entreter, mas sim provocar uma experi\u00eancia cat\u00e1rtica e reflexiva .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAnistia 79\u201d \u00e9  um document\u00e1rio sobre a emo\u00e7\u00e3o de pessoas que, diante de suas pr\u00f3prias imagens, revisitam expectativas e frustra\u00e7\u00f5es de uma luta que segue inacabada. \u00c9 um grito contra a impunidade que persiste e um lembrete de que, neste pa\u00eds, o passado ainda n\u00e3o passou \u2014 ele est\u00e1 vivo, pulsando e, como as imagens de Nanterre, esperando para ser confrontado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena conferir. E conferir com urg\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriana Maraviglia Em um momento especialmente delicado para a democracia do Brasil e para o povo brasileiro, no qual amea\u00e7as externas trazem de volta todo o horror autorit\u00e1rio que j\u00e1 vivemos antes, chega aos cinemas\u00a0 \u201cAnistia 79\u201d, o novo e corajoso document\u00e1rio de Anita Leandro, com estreia hoje em diversas cidades brasileiras.\u00a0\u00a0 A obra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":1188,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,12],"tags":[63,69,65,67,64,66],"class_list":["post-1187","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema","category-criticas","tag-anistia-79","tag-anita-leandro","tag-ditadura","tag-ditadura-militar","tag-documentario","tag-repressao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1187"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1189,"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187\/revisions\/1189"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1188"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistaeletricidade.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}