O Furacão Humano: Safdie, Chalamet e o Retrato da Ambição em “Marty Supreme”

Cinema

Há uma pulsação elétrica que atravessa Marty Supreme, o novo filme solitário de Josh Safdie, assim como há uma pulsação febril no peito de Marty Mauser, seu protagonista. Não se engane: este não é um filme sobre esporte. É um filme sobre a obsessão.
A obsessão de um diretor pelo movimento ininterrupto da cidade e de seus personagens à beira do abismo, e a obsessão visível de seu astro, Timothée Chalamet, por se consagrar como “um dos grandes”, declaração que ele mesmo já fez publicamente . O resultado é uma cinebiografia que foge radicalmente de tudo que se espera do gênero: em vez de um arco heróico triunfante, somos apresentados a um estudo fascinante e anárquico da grandeza vista pelos olhos de um canalha.

Chalamet, que acaba de ser coroado com o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical pelo papel, não interpreta Marty Mauser; ele o encarna com uma fúria física e psicológica que é a espinha dorsal do filme.

Seu personagem é um vendedor de sapatos judeu do Lower East Side de Nova York nos anos 1950, que almeja ser nada menos que o maior jogador de tênis de mesa do mundo. Mas a trama não se apoia em vitórias fáceis. Marty é um personagem profundamente falho, um “idiota nos vinte e poucos anos”, como o próprio ator o descreveu , que mente, trapaceia, rouba e manipula qualquer um que cruze seu caminho – da estrela de cinema Kay Stone (uma luminosa e calculada Gwyneth Paltrow, em grande retorno) ao magnata Milton Rockwell (Kevin O’Leary) – para financiar seu sonho e saciar sua sede de reconhecimento.

Aqui reside o gênio e o risco do filme. Safdie, em sua primeira empreitada solo sem o irmão Benny, recusa-se a pedir desculpas por seu herói falho. Como em “Joias Brutas”(2019), ele nos coloca dentro da mente de um homem cuja inteligência só é superada por sua capacidade de criar os próprios problemas. Não é sobre torcer ou não por ele; é sobre ser incapaz de desviar o olhar daquele furacão humano em ação. E Chalamet, com sua preparação de sete anos de treino no tênis de mesa, entre sets de filmagem de Wonka e Duna, traz uma autenticidade visceral que transcende o truque técnico. Ele não parece um ator jogando; parece um atleta. Cada golpe, cada finta, o suor que escorre em jogos-torneio filmados com a tensão de um thriller, tudo grita veracidade . Os consultores técnicos do filme atestam que ele executou todos os pontos sozinho, sem dublês, após ensaiar coreografias complexas sem a bola, apenas para entender a mecânica do movimento .

Por trás do ritmo alucinante e da Nova York dos anos 1950 reconstruída com uma beleza sórdida e viva pelo diretor de fotografia Darius Khondji, o filme esconde camadas mais profundas. A rivalidade esportiva com o campeão japonês Koto Endo (interpretado pelo verdadeiro campeão Koto Kawaguchi) não é apenas pessoal, mas ecoa os traumas e as reconstruções pós-Segunda Guerra Mundial. O tênis de mesa se torna um campo de batalha simbólico, uma forma de existir e de afirmar-se num mundo que te ignora. A subtrama com Rachel (uma reveladora Odessa A’zion), a amiga de infância grávida, adiciona uma camada urgente de consequência emocional e de futuro em jogo, ampliando as apostas para muito além da mesa de jogo.

Marty Supreme é longo e denso, uma máquina narrativa que avança com energia cinética implacável. Pode exaurir, pode dividir. Mas sua ousadia é sua virtude. É um filme sobre a busca pela excelência que escolhe mostrar toda a sujeira, egoísmo e beleza torta do caminho. No centro, brilha a interpretação de Timothée Chalamet, que não apenas treinou por anos para o papel, mas mergulhou nas profundezas sombrias e cômicas de um personagem que é, simultaneamente, repulsivo e magnético. Ele não ganhou o Globo de Ouro por saber rebater uma bola. Ganhou por nos fazer acreditar, contra toda a lógica moral, que a grandeza de um homem pode, às vezes, vir enrolada em sua própria ruína. E essa é uma verdade muito mais complexa e interessante do que qualquer final feliz convencional.



Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade

  • Marty Supreme estreia nos cinemas brasileiros no dia 22/01

Assista ao trailer de “Marty Supreme”:

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