O suspense doméstico, que transforma o lar em território de desconfiança, ganha em “A Empregada” uma versão ao mesmo tempo clássica e afiada. Baseado no romance de Freida McFadden, o filme conserva a premissa que atrai leitores — a tensão entre patroa e empregada — e a traduz para a tela com escolhas que amplificam o desconforto sem recorrer a artifícios fáceis. A direção de Paul Feig imprime alguma segurança, evitando pressa para expor toda a história de uma vez enquanto deixa a câmera e o silêncio trabalharem a ambiguidade, o que resulta em momentos de verdadeira inquietação.
As atuações são o motor do filme. Amanda Seyfried constrói uma personagem que oscila entre a compostura elegante e uma fragilidade nervosa; sua interpretação é de contenção calculada, com micro-explosões emocionais que mantêm o público em alerta. Sydney Sweeney, no papel-título, equilibra doçura e ameaça latente, oferecendo uma performance que nunca entrega tudo de uma vez — é a ambiguidade de Sweeney que sustenta a maior parte do suspense e transforma cada gesto em potencial pista ou armadilha. A química entre as duas não é binária; é uma observação mútua que se transforma em jogo de poder, e é aí que o filme encontra sua força dramática.
Visualmente, o longa é impecável. A casa, quase personagem, é moderna e luminosa, mas a direção de fotografia explora essa clareza para torná-la claustrofóbica: janelas amplas que expõem e isolam. A trilha sonora e a edição trabalham em conjunto para elevar a tensão, alternando passagens de silêncio cortante com picos sonoros que fazem o espectador prender a respiração em cenas-chave.
No entanto, o filme não é perfeito. O terceiro ato peca por um acúmulo de reviravoltas que, em sua pressa por chocar, às vezes corroendo a credibilidade construída com paciência até então. Esse excesso não apaga as qualidades centrais — atuações e atmosfera — mas dilui um pouco o impacto final, deixando a sensação de que o equilíbrio entre sutileza e espetáculo poderia ter sido melhor calibrado.
Sem revelar surpresas, “A Empregada” funciona como um estudo sobre performances sociais e as máscaras que mantemos.
Para quem gosta de thrillers psicológicos bem atuados e esteticamente refinados, é uma experiência que prende; para espectadores que exigem coerência absoluta até o último minuto, pode provocar discussões acaloradas na saída do cinema. As sessões antecipadas estão acontecendo desde 19 de dezembro, para um público ansioso pelas exibições antes da estreia oficial em 1º de janeiro de 2026.
Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade
