Linklater filma sua carta de amor a Godard em Nouvelle Vague

Cinema Críticas

Chega nesta quinta‑feira (18/12) aos cinemas brasileiros Nouvelle Vague, novo longa de Richard Linklater que se apresenta como uma carta de amor ao cinema e, em particular, à obra de Jean‑Luc Godard e à revolução estética da Nouvelle Vague.

Linklater, conhecido pelo tom contemplativo de filmes como a trilogia Antes do Amanhecer, propõe uma mistura de documentário e reconstituição dos bastidores de À Bout de Souffle (1960). O diretor não busca a reprodução literal dos fatos: o filme privilegia uma impressão do processo criativo — o caos, a paixão e a irreverência que marcaram aquela filmagem seminal.
O trio central de atores Guillaume Marbeck (Godard), Zoey Deutch (Jean Seberg) e Aubry Dullin (Jean-Paul Belmondo) é encantador e mantem o público mergulhado naquele ambiente criativo com muito charme e leveza. 

A narrativa adota ritmo leve e estilizado, alternando ficção e making‑of quase onírico. Linklater captura traços centrais da Nouvelle Vague — enquadramentos desconstruídos, diálogo naturalista, quebra da quarta parede e referências à cultura pop — sem tentar emular o corte frenético de Godard. O resultado é uma leitura afetiva do movimento, filtrada pelo tempo e pela perspectiva do autor.

O filme destaca o trabalho coletivo: imprevistos de set, debates entre takes e a euforia de criar algo novo. A câmera funciona como observadora participante, encontrando poesia no improviso e significado nos intervalos. O elenco entrega performances afiadas que traduzem tanto personagens icônicos quanto a energia de uma juventude em ebulição.

A fotografia merece menção especial: a direção de fotografia recria com delicadeza e precisão a Paris do final dos anos 1950 e início dos anos 1960, em preto e branco, luz natural e composições que evocam tanto o realismo quanto o lirismo da época. Essas imagens não apenas situam o espectador no tempo, mas reforçam o tom nostálgico e celebratório do filme, transformando a cidade em personagem.

A indicação ao Globo de Ouro na categoria comédia/musical sinaliza o tom espirituoso da obra. A comicidade nasce das situações e do contraste entre ambição artística e percalços cotidianos de uma produção conferindo à obra leveza e prazer pelo fazer cinematográfico.

Nouvelle Vague opera em dois níveis: para conhecedores de Godard, oferece uma experiência analítica e repleta de referências; para novos espectadores, funciona como porta de entrada acessível a um capítulo decisivo da história do cinema. Mais do que homenagem, a obra estabelece um diálogo entre gerações de cineastas disruptivos, em que Linklater preserva sua voz sem recorrer ao pastiche.

Ao privilegiar a vivência do set em vez da precisão documental, Linklater entrega uma obra comovente e esteticamente coerente, indicada para quem valoriza a tela grande como espaço de invenção e revolução.

Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade



Assista ao trailer de “Nouvelle Vague”:

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