Em um ano em que o cinema parece ter redescoberto a potência do silêncio e do olhar, surge “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, uma obra que não se contenta em ser assistida — exige ser sentida. Dirigido pela sensibilidade única de Chloé Zhao, o filme é uma adaptação do romance de Maggie O’Farrell e se transforma, nas mãos da cineasta e de sua protagonista Jessie Buckley, em uma experiência cinematográfica de rara beleza e força emocional. A história que todos pensam conhecer — a sombra por trás da criação de “Hamlet” — ganha aqui cores, texturas e, sobretudo, um coração que bate forte no escuro.
O grande trunfo do filme é desviar o foco do gênio literário para o terreno fértil e doloroso que o gerou. A narrativa se constrói no espaço íntimo e doméstico, no casamento entre Will e Agnes, uma mulher profundamente ligada à natureza e seus ciclos. É nesse território que Jessie Buckley constrói uma das atuações mais memoráveis e completas dos últimos tempos.
Com uma presença de tela que varia entre a força silenciosa de uma raiz e a tempestade expressiva de uma perda irreparável, Buckley conduz o espectador por uma jornada emocional sem mapas. Seus olhos capturam toda uma gama de sentimentos — o amor, a estranheza, a profunda conexão com os filhos, a dor — com uma verdade que dispensa palavras.
Chloé Zhao, vencedora do Oscar por “Nomadland”, aplica aqui sua marca registrada: uma poética do real. Ela filma a floresta, os campos e a casa não como cenário, mas como extensão do estado interior de seus personagens. A luz natural, os enquadramentos que privilegiam a humanidade em sua escala mais simples, tudo converge para criar um mundo tangível e orgânico. A beleza das imagens, capturadas pelo luminoso trabalho fotográfico, nunca é meramente decorativa; ela amplifica o impacto da história. A trilha sonora, por sua vez, mergulha o público naquela atmosfera, ecoando o turbilhão interior que a trama evoca.
O impacto emocional de “Hamnet” é profundo e duradouro. O filme maneja o luto e a criação artística não como conceitos, mas como processos orgânicos e paralelos. Ele nos mostra como a maior das dores pode, paradoxalmente, ser a semente da arte mais imortal. A conclusão do filme, que faz a ponte entre a vida privada e a obra pública, é um lance de mestre — um momento de catarse coletiva que justifica toda a empreitada e deixa o público em um estado de reflexão silenciosa e comovida.
Quando se fala em temporada de premiações, é comum analisar campanhas e estratégias. No caso de “Hamnet” e de Jessie Buckley, no entanto, parece haver um consenso diferente: o reconhecimento não seria uma estratégia, mas uma consequência natural.
A atuação de Buckley é daquelas que redefinem parâmetros, que mostram o que é possível fazer com o instrumento do corpo e da emoção. Ela já conquistou o Critics’ Choice Award e é, sem dúvida, uma forte favorita ao Oscar, Globo de Ouro e BAFTA.
Mas mais do que estatuetas, o filme e sua estrela principal conquistam algo mais valioso: a certeza no espectador de ter testemunhado um trabalho excepcional, uma história contada com integridade máxima e uma beleza fílmica que fica gravada na memória. “Hamnet” não é apenas um filme para a temporada de premiações; é um filme para a história do cinema.
Adriana Maraviglia
@revistaeletricidade
